Já não me espantam as curvas obliquas dos dias, quando, à tardinha, pego naquele mesmo livro que já esteve para ser lido não sei quantas vezes e com ele me sento no meu velho maple de veludo grená, empalidecido pelo mesmo tempo que me amarrotou as feições lisas do rosto. Mais uma vez o poiso no colo distraído e me rendo ao cansaço e ao mesmo abandono de todos os instantes suspensos no relógio sem pêndulo, que, lá no seu canto esquecido, do outro lado da sala, há muito que passou a rodar no sentido contrário, dando horas que já foram sem que ninguém tivesse dado por isso ou lhe contrariasse aquela estranha marcha sem sentido.

Acordo estremunhada e é aí que reparo que pela janela envidraçada, vai entrando mesmo sem licença, a claridade da noite que entretanto se foi chegando silenciosamente e se apoderou do resto que o dia não conseguiu segurar por mais tempo.
Levantei-me a custo, peguei na bengala e com passinhos curtos e entorpecidos, caminhei até à estante onde voltei a colocar cuidadosamente o livro que não li...
Lá fui cambaleante, apalpando a escuridão estreita daquele corredor que, subitamente, me vai parecendo cada vez mais comprido.



São vorazes
Os pensamentos
Que me chibatam
Constantemente
Estas já débeis
E tão frágeis
De carcomidas
Paredes
Em ruinas

Esborralhadas ruínas
Desta minha
Insana mente
Cujas fendas
Cada vez maiores
São passagens
Secretas
De bizarras demências
Que me vieram fustigar
A pacatez da vida

Passageiras clandestinas
Escondidas nos bolsos
Daquele outro
Que aos poucos
Me ocupou
O corpo
E me encarcerou
Para sempre
Nas masmorras
Do esquecimento
Despojando-me
De tudo aquilo
Que era meu!

De tudo aquilo
Que era eu...

Daquele que fora
Nada restou
Tudo da mente se foi
Se apagou...
Só o oco da razão
Ficou!

E por esse que eu já não sou
Não respondo
Nada digo
Pois que também
Nada sei

Deixem-me...
Exijo silêncio!

Que aqui
Agora
Mora um louco!
Um respeitável louco
Ainda que varrido
Da sua própria
Memória...


Segui pegadas
Do destino
Que bebi
Na fonte do acaso
De um encontro inesperado

Trouxeram-me alegrias
De espanto
Que me coloriram
A noite morna

Afinal
Eram minhas
Aquelas palavras
E foram por mim semeadas
Num certo chão de quimeras

Saboreei-as de novo
Uma a uma
Como se fossem novas
Como se fossem as primeiras
A bailarem-me nos olhos
Subitamente inundados
Pelas águas salgadas
De um oceano desgovernado

Erguendo ondas

E despertando sentimentos antigos
Adormecidos...

Souberam-me a tanto
Que nem tenho verbos
Que possa conjugar
No tempo certo
De um instante
Emocionante...
E impossível de olvidar!



O tempo
É um cavalo
Alado
Que percorre
Incansável
Planícies e planaltos
Sem idade...

Umas vezes
Vagaroso
Sem pressa
Outras
Como um raio
Que atravessa
A poeira das estrelas
Sem deixar rasto...

Ora a galope
Ora a trote
Correndo horas a fio
É vê-lo
Sempre elegante
Decidido
Inchado de vaidoso
Ostentando no dorso
O seu cavaleiro
Resignado...

Sem apelo
Nem agravo
Numa marcha imparável
Qual condenado
A caminho do seu inevitável
Degredo...


O relógio parou às dezanove horas e treze minutos de um dia aparentemente normal, igual a tantos outros. De repente uma estranha calma se abateu sobre a cidade e nem os animais tiveram tempo de pressentir o que se seguiu...

Após a morte da terra, dos homens e dos animais; os que sobreviveram, passaram a vaguear sem rumo, numa luta diária e constante pelas coisas mais simples que um ser humano nem se apercebe no seu dia a dia da importância que têm nem do quanto delas necessita para se manter vivo. A água ainda corria nos rios embora tivesse perdido a sua aparência cristalina e passasse a ser barrenta. Os mares também já não eram de tom azul, agora eram pardos, da cor das nuvens que os cobriam e que haviam tomado o lugar do céu outrora radiosamente azul. O sol não mais se viu...
A busca incessante pela comida não lhes dava descanso e parar onde quer que fosse, por mais tempo do que o necessário para revolver o interior das casas abandonadas em busca de algo que se pudesse trincar e enganar a fome, seria a morte certa! Havia grupos organizados de gente sem qualquer tipo de escrúpulos, que se dedicavam a caçar outros malogrados sobreviventes dos poucos que se tinham recusado a suicidar-se... e uma vez capturados, teriam como destino uma despensa de gente ainda viva para que se mantivesse a sua carne fresca durante mais tempo a fim de lhes saciar a fome.
As estradas desertas eram caminhos para nenhures.
A desolação era total e bem real. Porque não havia mais nada a não ser fome, frio, medo, cansaço, desesperança... morte.
Passou-se algures, num futuro cada vez mais próximo.


Hoje vesti-me de silêncio

E sou apenas ouvinte

Dos aplausos mudos

Que me ecoam

Ainda


Na mente...


Sou palhaço

A tempo inteiro

Dentro ou fora

Do meu palco

Que ri e faz rir

Ou que também chora

Por detrás da cortina

Quando se emociona

Como qualquer outro ser

Humano


Mas hoje apetece-me

Ser só um palhaço

De cara lavada

Sem riso

Nem choro

Velando o meu sonho

No embalo

Na tranquilidade

De um inquietante

Instante silencioso


E sorrio...


Sorrio

Para mim mesmo

Quando me penso

Ser um simples louco

Um louco

Que se ri de si mesmo

Assim...

... só porque sim!


E que mal fará isso?

Se hoje me sinto feliz...


... assim!




Gosto de remexer nos cacos da minha história, que guardei como relíquias de valor incalculável. Revolver o amontoado de lembranças, sentir o seu cheiro, que, por instantes, me levam ao sítio e ao tempo a que pertencem, fazendo com que reviva os melhores pedaços da minha vida passada, sem sentir grandes saudades dos que ainda não vieram. Talvez venham, talvez nem venham...
De quando em quando, dou longos passeios pelo que me resta do que a minha mente não apagou ainda. Só dou conta de mim, quando me vejo ali sentada de novo, no meu jardim de melancolias perfumadas a folhear os meus álbuns antigos, onde guardei alguns dos meus melhores momentos. A maior parte, são pertença da minha infancia. Uma infancia que me visita vezes sem conta e quase todos os dias.
Quedo-me em cada um deles e é aí que a magia acontece... num piscar de olhos, revejo-me do lado de dentro das imagens que me povoam o pensamento. Sou eu ali, como se estivesse sentada no sofá da minha sala, a assistir a uma cena de um filme. Só que, desta vez, trata-se do meu próprio filme. E não deve ser por acaso que desempenho o papel principal, ou não fosse eu a protagonista da minha própria vida!...
Neste filme antigo, cujo elenco ali se mantém bem vivo, apesar de já terem morrido uma boa parte deles; as cores já um pouco esbatidas pela minha memória, ainda realçam na perfeição as imagens onde me revejo, como se o tempo tivesse parado e eu nunca tivesse dali saído. É por isso que vos digo, que não tenho saudades do futuro...
Quanto mais me confronto com os anos passados, que se vão acumulando no sótão das minhas memórias, mais antigos se tornam os do futuro. E sendo assim, não tenho pressa de coisa nenhuma, muito menos de apressar o tempo, ansiando os melhores anos que nunca mais chegam... pois que esses, esses já passaram!
Poucos são os que dão por isso.



A noite estava fria, tão fria que ninguém fazia ideia.As ruas desertas eram agora mais tristes ainda. De dia nem se notava, tudo parece mais agradável, camuflado pelos ruídos de fundo e o reboliço normal da vida. Pessoas e carros correm desenfreados para um qualquer compromisso inadiável, como se tudo dependesse da pressa que levam na ponta dos minutos que lhes restam para a hora certa... como se as suas vidas dependessem apenas disso. Chegar a qualquer lado a tempo e não ser repreendido nem penalizado por isso. Ou mais grave ainda, perder algo de que se arrependesse para todo o sempre...
Mas o dia já terminara há um bom par de horas e aos poucos as ruas foram-se esvaziando. Ficaram só os que não se conseguem separar delas, os que há muito passaram a fazer parte delas, como se fossem bibelots ou guardiões notívagos da cidade.
A temperatura baixou repentinamente e apanhou-os desprevenidos, nem as caixas de cartão novas que trouxeram das traseiras das boutiques vizinhas e os cobertores coçados que já tinham, lhes chegavam para se resguardar do frio cortante da noite. Alguns desistiram de resistir, levantaram-se e fizeram fogueiras em latas de tinta velhas que arranjaram na obra ali ao lado, paredes meias com o passeio das arcadas onde se costumavam deitar, por ser coberto e o mais recolhido das redondezas. As chamas aqueciam-lhes as mãos geladas e o vinho da garrafa que partilhavam gole a gole, tratava de lhes aquecer a alma empedernida pela cicatriz da solidão de cada um, naquela que era a noite mais triste de todas as que o ano tinha.
Talvez se não houvesse Natal, as noites fossem só noites. Umas mais frias do que outras, mas só mais uma noite sem qualquer outro significado que a tornasse mais triste ou menos triste do que as outras.



No acaso de um acaso, encontraram-se só no ocaso do dia e... por acaso.
E não foi por acaso que a empatia foi brutal!
Palavra puxa palavra, sorriso puxa sorriso e num ápice se elevaram ao pico as emoções indizíveis que se erguem do nada... e sem mais perdas de tempo, saltaram alguns dos pormenores da conquista emocional e procuraram um lugar tranquilo, num recanto da praia já deserta, longe de olhares indesejados, para saciarem o que os corpos lhes imploravam em outros olhares, em outros apelos mais carnais do que emocionais. Talvez mais tarde se dedicassem a isso com mais perfomance... não podiam nem queriam deixar passar aquele instante tão... tão... fortuito e ao mesmo tempo, furtivo.
E antes que se fizesse tarde, não se entregaram ao descaso, sob pena de desperdiçarem o pouco do tempo que tinham, para viverem o tanto que desejavam.
E num impulso, entregaram-se de novo ao saboroso acaso, desta feita, quando já despiam a pouca roupa que ainda lhes restava, para que nada lhes atrapalhasse o mergulho nas teias da paixão inflamada, num fulgor indescritível de total comunhão de corpo e alma.
Há casos e casos... mas um caso assim, que nasceu de um acaso do acaso no ocaso sem descaso, é algo fenomenal!...




Afogo as mágoas
Neste copo
Sem fundo
Que me engole
A alma
Até à última gota...

Como águia
Ferida de morte
Desço a pique
Num mergulho
Vertiginoso
Rasando a vida
Por um fio...

Anoiteço e amanheço
Com um só
Pensamento
E são tão fortes
As pancadas deste martelo
Que me dilacera
O cérebro
Que me endoidece!
E bebo...
Bebo para o esquecer

A minha companhia
É a mesma de sempre
O ópio que me domina
E... Eu mesmo!
Envolto em brumas
Que me turvam os olhos
Empardecendo-me o caminho
De todos os dias

E tudo o que quero
É afinal tão simples
Esquecer...
Esquecer tudo
Tudo!

Esquecer até
... que existo!...