Serena é a derrota dos ingénuos, ainda que largados ao abandono da sorte, sob o denso manto da noite. Uivos de lobos esfaimados ecoam do breu das montanhas anunciando o início do banquete. E as portas do céu que permanecem cerradas... Ninguém para os salvar!
Indiferentes aos gritos das almas inocentes, ferozes, impacientes, as bestas avançam implacáveis a coberto da escuridão!
Existem tantos mistérios e terrores escondidos nas pregas dos nossos sonhos, capazes de nos sobressaltarem se nos apanham distraídos... na profundidade do sono.
E se calhar já nem sonho, nem sono, nem terrores ou mistérios. Se calhar já nem nós, a ocupar a cadeira que dormita, a encher o vazio das horas...
Algures, entre a alvorada e o ocaso de todas as vidas, existe um misterioso jardim abandonado cujo portão enferrujado não carece de chave, visto que se encontra meio aberto e meio fechado. Em todo o caso, a chave mesmo ao lado, pendurada no prego dobrado. Lá dentro, a teimosia das roseiras bravas a travar silenciosas batalhas com o desgrenhado das ervas para espanto dos picos das silvas esfomeadas a tomarem conta das lápides resignadas... E eu, do lado de fora espreito enquanto decido, se entro ou se fico.
Talvez mais tarde - por ora estou só de passagem - ainda é tempo de saborear a viagem nesta estranha carruagem de um louco e atormentado comboio sem destino.
Morremos em cada palavra
não dita
em cada gesto contido
em que o toque involuntário
nos retrai.
Morremos ainda, ao dobrar aquela esquina
onde, por acidente, nos cruzamos
e logo nos apressamos
a fingir-mo-nos
de estranhos.
E os olhos procuram a fuga que urge,
no chão
meio palmo à frente dos sapatos
baços,
no desleixo da graxa.
E seguimos caminho
segurando com firmeza
a cabeça,
não fosse uma fraqueza...
Passam as semanas
passam os meses
os anos
E é sempre mudos que nos achamos
e desachamos
nas voltas imprevistas do tempo
É a besta do orgulho
ditador e mesquinho
a quem nos vendemos por impulso
a impor-nos agora
a sua absoluta razão!
Mas não será esta razão
uma covarde mentira?
Há muito que nos deixámos de ser
preferindo não estar
para não ver
para não sentir
E fecha-mo-nos no nosso mundo
de ostra
protegendo-nos do desprezo
das pérolas...
não dita
em cada gesto contido
em que o toque involuntário
nos retrai.
Morremos ainda, ao dobrar aquela esquina
onde, por acidente, nos cruzamos
e logo nos apressamos
a fingir-mo-nos
de estranhos.
E os olhos procuram a fuga que urge,
no chão
meio palmo à frente dos sapatos
baços,
no desleixo da graxa.
E seguimos caminho
segurando com firmeza
a cabeça,
não fosse uma fraqueza...
Passam as semanas
passam os meses
os anos
E é sempre mudos que nos achamos
e desachamos
nas voltas imprevistas do tempo
É a besta do orgulho
ditador e mesquinho
a quem nos vendemos por impulso
a impor-nos agora
a sua absoluta razão!
Mas não será esta razão
uma covarde mentira?
Há muito que nos deixámos de ser
preferindo não estar
para não ver
para não sentir
E fecha-mo-nos no nosso mundo
de ostra
protegendo-nos do desprezo
das pérolas...
Um dia, ainda hei-de escrever
Um poema
Perfeito
Nem que para isso
Me dispa
De mim mesma
E me entregue nua
Sem preconceito
Ao ríspido aparo da pena...
Bem sei, que
Serão de sangue as letras
Dolorosas feridas
Que me rasgarão
Penosas cicatrizes
Feitas
Do imperfeito poema...
Marcas inequívocas
Que invocarão
A busca miserável
Pela perfeição!
Contudo
Será sempre medíocre
O que se pensa, perfeito
Por defeito...
Tenho fome de sorrisos de sol e da preguiça do vento... da embriagante lânguidez do entardecer, espraiando-se sob os campos de trigo doirado, quase maduro. Dos dias cálidos a prometerem sinfonias de grilos e de rãs noites adentro. Tenho saudades do bailado ondulante das borboletas e do verde fluorscente dos luzicus na parede do meu quintal. Dos lírios que enfeitavam o jardim abandonado, em frente à casa alta de xisto da rua da minha avó e em cujo telhado de lajes quentes, me sentava junto dela e me demorava a ouvir as suas histórias de encantar, que me contava por entre costuras de dedal e agulhas difíceis de enfiar.
Lembro-me das dálias rubras sem canteiro, nascidas da terra, junto ao corrimão das videiras. Das tangerinas que salpicavam o chão em volta da tangerineira e das outras que colhíamos com a escada da azeitona. Dos abrunhos de frança a pingarem de mel... das abelhas gulosas e da bilha de barro onde se guardava a água fresca que nos matava a sede quando longe das nascentes.
Dos enfeites e das festas, da música e do largo cheio de gente.
Lembro-me das dálias rubras sem canteiro, nascidas da terra, junto ao corrimão das videiras. Das tangerinas que salpicavam o chão em volta da tangerineira e das outras que colhíamos com a escada da azeitona. Dos abrunhos de frança a pingarem de mel... das abelhas gulosas e da bilha de barro onde se guardava a água fresca que nos matava a sede quando longe das nascentes.
Dos enfeites e das festas, da música e do largo cheio de gente.
Sou o que sou
Sem chegar a saber
Quem realmente sou
Sinto-me
Sem chegar a saber
Quem realmente sou
Sinto-me
No intervalo
Entre aquilo que fui
E o que nunca cheguei
A ser
E o que fui afinal?
Interrogo-me agora
Quando me busco
E não me acho
No álbum vazio
Da estante...
Se ontem me morri
Sem saber
Quando me abandonei
E me esqueci
De viver
Se ontem não fui
E hoje não sei
Talvez amanhã
Ainda venha a tempo
De vir a ser
Um qualquer
Alguém...!
Entre aquilo que fui
E o que nunca cheguei
A ser
E o que fui afinal?
Interrogo-me agora
Quando me busco
E não me acho
No álbum vazio
Da estante...
Se ontem me morri
Sem saber
Quando me abandonei
E me esqueci
De viver
Se ontem não fui
E hoje não sei
Talvez amanhã
Ainda venha a tempo
De vir a ser
Um qualquer
Alguém...!
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