Todos os dias são vésperas de outros dias.
Todos os dias, a seguir aos dias das vésperas, serão os dias seguintes. O depois de...
Por isso, todos os dias serão sempre importantes vésperas de alguma coisa.

Na véspera de nós,
costumava convidar o silêncio para a minha companhia.
Depois, bebíamos os dois em segredo um cálice de ânsias, que se dissolvia nas letargias sonâmbulas das madrugadas, empoleiradas nos ponteiros de um tísico relógio de parede que marcava impiedosamente, um a um, os cínicos minutos gasosos da insónia, insolente e insaciável devoradora de quietudes nocturnas...


Vociferam altaneiras
As vozes!

Já antes haviam galgado
Furiosas
As paredes das gargantas
De esganiçadas carpideiras
Cuspideiras de prantos
Alheios...

Agora
E frigidamente
Espojadas pela poesia
Jorram
Em desatino
Caudais inimagináveis
De improperados rios
De verbos
Tão empobrecida(mente)
Desvestidos de versos...



Não se recorda há quanto tempo ali está, não sabe os anos que tem, nem sequer o que fora em tempos se é que algum dia chegou a ser alguma coisa. Diz que talvez tenha sido carteiro, cobrador, polícia ou barbeiro... pode ter sido tudo isso, uma das coisas ou coisa nenhuma. Pelo modo como fala, até pode muito bem ter sido doutor! Mas... o que importa isso? O que poderá interessar o passado de uma alma da qual ninguém se interessa no presente? Não se lhe conhecem amigos nem família; pelo menos, ninguém aparece para a visita.
Sabe, isso sim, cantigas de cor de outros tempos idos, que, por um qualquer motivo, lhe ficaram intactas num recanto da mente onde tudo o resto se diluiu ou deformou. Recita-as pomposamente como se declamasse poesias, num tom de voz potente e bem colocado, devolvendo à lucidez um pequeno instante que se escapa da loucura que normalmente lhe habita a mente, como se fosse um cão a morder-lhe o cérebro, constantemente...


Há qualquer coisa de enigmático que se esconde por detrás da falsa indiferença que ambos fazem questão de mostrar. Talvez no indizível dos pensamentos...
É uma espécie de jogo de sedução, mortalmente perigoso e cuja única regra se impõe pelo silencio que a rege e algo me diz que nenhum dos dois se atreverá a quebra-la, jamais!
Obrigados a permanecer frente a frente, sem terem para onde fugir, não terão outro remédio que não seja o de arriscar no jogo que servirá também para testar as suas resistências. Por isso, serão jogadores mudos até ao resto da vida, cientes de que nada mais haverá para ganhar, além daquilo que todos os dias irão perdendo e que já conta desde o início, logo após o fim...
Trocaram a amizade saudável que tinham por uma leviandade, por um capricho, por um impulso, por uma paixão... e se algum dia ganharam, certamente que o peso da perda será sempre maior do que o do ganho.



Disse-me que andava a cultivar silêncios, com o intuito de melhor poder treinar os músculos da virtude do pensamento, que, por descuido seu, já dava mostras de alguma fraqueza devido ao desleixo a que se tinha votado. Disse-me também, que se não tivesse tido um rasgo de lucidez naquele momento exacto e desse mais uns passinhos em frente, naquela direcção desnorteada, não tardaria muito a entrar numa espiral devastadora, rumo à vastidão do infinito mundo da imbecilidade. (Coisa que sempre criticara enquanto ser humano detentor de todas as faculdades mentais no seu perfeito estado de saúde. Mas um dia, num certo estado de desespero para onde a vida o tivera empurrado, e sem saber muito bem como, se viu agarrado a um galho que lhe pareceu firme ou teria sido levado na enxurrada).
Seria pois, por certo, um caminho sem retorno com início na beirinha daquele precipício do buraco negro da insanidade para onde se costumam atirar todas as almas vazias que não souberam cuidar de si mesmas e se entregaram deliberadamente aos sugadores de cérebros a quem chamavam respeitosamente de pastores, passando assim a fazer parte de um vasto rebanho de suicidas voluntários sem qualquer tipo de vontade própria, limitando-se a seguirem atrás umas das outras...
Pobres almas desperdiçadas e em torno de coisa nenhuma.



A terra
A mais perfeita
De todas as criações
Das criações
Que o universo
Contém

Dizem
Por via
Das profecias antigas
Estar breve
O fim de tudo

Qual sombra apocalíptica
Tão grande
Quanto o manto
Da noite perpétua
Capaz de engolir o mundo
E o levar
Para além do infinito

Nem tempos
Nem eras
Nem memórias
Nem partícula alguma...

Tudo se findará
Como se nunca
Nada houvesse existido...


A propósito do último livro de Manuel Alegre, o nosso político mais poeta que se conhece e ao qual deu o curioso título: "o miúdo que pregava pregos numa tábua", veio-me imediatamente à ideia a minha remota infância, que, numa coincidência nostálgica, me reportou no tempo ao mesmo pé de igualdade da deste miúdo do livro. Assim sendo e não pretendendo usurpar coisíssima nenhuma ao autor deste livro a não ser o que o seu título me despertou nas lembranças onde era eu a miúda que pregava pregos numa tábua.

O meu pai era marceneiro e era por ali, dentro da sua pequena oficina, que eu ficava a maior parte dos dias enquanto a minha mãe se ocupava dos trabalhos do campo a que estava obrigada.
Entretinha-me pois, a brincar com o que tinha mais à mão e o que mais poderia ser? ... se não pregos, um martelo sem orelhas pequeno e os também pequenos quadradinhos de madeira de todas as formas e tamanhos que eu descobria no meio das aparas e da serradura que cobriam todo o chão.
Pregava pregos e dedos e no fim ficava um tanto ou quanto desiludida com a minha obra final. É que tinha a mania de querer fazer em ponto pequeno o que via o meu pai fazer em tamanho grande...

Talvez um pouco fora do contexto, mas não me posso esquecer também daquele homem que de vez em quando passava à porta da oficina e assomava na soleira da porta mendigando qualquer coisinha que lhe forrasse o estômago ou lhe agasalhasse o corpo já tão castigado pelo frio do Inverno rigoroso.

Naquele tempo viam-se alguns pedintes solitários que calcorreavam antigos caminhos de cabras que só eles conheciam e que os levava de terra em terra, mendigando uma côdea de broa aqui e ali ou uma peça de roupa ou de calçado que já não servisse ou fizesse falta a ninguém, fazendo desse modo de vida a sua odisseia existencial.

Falei neste pobre homem, porque é incontornável a lembrança daquele episódio caricato e que ainda hoje é motivo de gargalhadas sempre que alguém se lembra e se fala nele.
Então dizia o homem, virando-se para o meu pai, já depois de ter morto a fome e enquanto descansava da jornada, regando o cansaço com um copito de vinho - Ó Ti Abílio, e se você me desse uma tábua e um prego para eu levar comigo e quando chegasse à minha terra a pregasse numa parede que lá há? A ver o que é que dava!...


Não são raras as vezes, que, na busca do inefável, do mítico perfeito do nada que pode ser tudo, capaz de arrancar "oh's" de admiração das bocas dos outros, me perco em caminhos feitos de círculos minúsculos e fechados sobre si mesmos, na ridícula galáxia da minha ignorância, rendendo-me ao óbvio que não escondo e que por isso o deixo bem à vista de todos...
Quando finalmente me dou conta de que não sou capaz, baixo a cabeça num gesto de submisso conformismo enquanto me reduzo à minha própria insignificância, arrastando pelo chão a miséria que me resta, mas que, ironicamente, é também a minha única fortuna. Tal como uma pobre garota pequena e triste faria com a sua velha boneca de trapos, já tão suja e gasta, ao passar de mão dada com a sua mãe pela montra de uma loja de brinquedos e visse uma linda "barbie" sentada do lado de dentro da montra.
E morro-me lentamente, afogada nas minhas águas inquinadas de mediocridade, que, borbulhando, vão emergindo de dentro de mim, como uma poção mágica-maligna fervilha no caldeirão de uma bruxa daquelas histórias de arrepiar criancinhas inocentes... e que a certa altura me cospem e me deixam a flutuar sobre si mesmas, como o mar cospe um cadáver inchado que se solta de um navio afundado e o abandona à sua sorte, deixando-o a boiar impiedosamente ao sol, à chuva e ao vento, até se desfazer ou ser devorado por um qualquer tubarão faminto e já nada mais restar a não ser na hipotética saudade de algum amigo ou familiar, apagando assim com esta crueldade quase cínica, qualquer resquício da sua passagem pela vida...



Vede bem
Com olhos de ver
O que lhe fez
O inexorável
E incansável
Cinzel
Da vida!

Ferramenta
Impiedosa
Caprichosa
E cruel
Que lhe roubou
A lisura da pele
E lhe cavou
Na carne do rosto
Socalcos tamanhos

Por onde se adivinha
Que desmedidos
Rios de sal
Terão corrido
Secando-lhe
A última fonte
Dos sonhos...

Eis aqui
Pois
A obra (im)perfeita
Da arquitectura
Do tempo!



Por que mares
Terás tu navegado?
Por que ventos
Te terão levado?
Porque terras
Terás tu aportado?
Que tempestades terríveis
Terás tu enfrentado?!
Que dessa derradeira
E tão medonha
Não te tenhas livrado...

E que incríveis
Histórias
Terão os teus marinheiros
Levado
Para o fundo
Do implacável oceano?

.
.
.

O silêncio
É tudo o que me dás!

Ouço-o tão bem
Na tranquilidade
Plena
Da tua imagem
Tão serena
E calada...

Que se confunde
Com a quietude
Da paisagem
Onde quem reina
É a tua
Harmoniosa
E gloriosa paz...