Não são raras as vezes, que, na busca do inefável, do mítico perfeito do nada que pode ser tudo, capaz de arrancar "oh's" de admiração das bocas dos outros, me perco em caminhos feitos de círculos minúsculos e fechados sobre si mesmos, na ridícula galáxia da minha ignorância, rendendo-me ao óbvio que não escondo e que por isso o deixo bem à vista de todos...
Quando finalmente me dou conta de que não sou capaz, baixo a cabeça num gesto de submisso conformismo enquanto me reduzo à minha própria insignificância, arrastando pelo chão a miséria que me resta, mas que, ironicamente, é também a minha única fortuna. Tal como uma pobre garota pequena e triste faria com a sua velha boneca de trapos, já tão suja e gasta, ao passar de mão dada com a sua mãe pela montra de uma loja de brinquedos e visse uma linda "barbie" sentada do lado de dentro da montra.
E morro-me lentamente, afogada nas minhas águas inquinadas de mediocridade, que, borbulhando, vão emergindo de dentro de mim, como uma poção mágica-maligna fervilha no caldeirão de uma bruxa daquelas histórias de arrepiar criancinhas inocentes... e que a certa altura me cospem e me deixam a flutuar sobre si mesmas, como o mar cospe um cadáver inchado que se solta de um navio afundado e o abandona à sua sorte, deixando-o a boiar impiedosamente ao sol, à chuva e ao vento, até se desfazer ou ser devorado por um qualquer tubarão faminto e já nada mais restar a não ser na hipotética saudade de algum amigo ou familiar, apagando assim com esta crueldade quase cínica, qualquer resquício da sua passagem pela vida...



Vede bem
Com olhos de ver
O que lhe fez
O inexorável
E incansável
Cinzel
Da vida!

Ferramenta
Impiedosa
Caprichosa
E cruel
Que lhe roubou
A lisura da pele
E lhe cavou
Na carne do rosto
Socalcos tamanhos

Por onde se adivinha
Que desmedidos
Rios de sal
Terão corrido
Secando-lhe
A última fonte
Dos sonhos...

Eis aqui
Pois
A obra (im)perfeita
Da arquitectura
Do tempo!



Por que mares
Terás tu navegado?
Por que ventos
Te terão levado?
Porque terras
Terás tu aportado?
Que tempestades terríveis
Terás tu enfrentado?!
Que dessa derradeira
E tão medonha
Não te tenhas livrado...

E que incríveis
Histórias
Terão os teus marinheiros
Levado
Para o fundo
Do implacável oceano?

.
.
.

O silêncio
É tudo o que me dás!

Ouço-o tão bem
Na tranquilidade
Plena
Da tua imagem
Tão serena
E calada...

Que se confunde
Com a quietude
Da paisagem
Onde quem reina
É a tua
Harmoniosa
E gloriosa paz...


Tropecei
Num poema morto
Sem nome
Nem autor

Encontrei-o
Caído
Prostrado
Na calçada
Enlameada

Aproximei-me
E ergui-o com cuidado
Para que se não desintegrassem
As palavras
Que nele estavam
Incrustadas

Li-o emocionada
Porque lhe senti o amargo
Do malogro
Que o matou

Só no fim percebi
Que o que ali
Jazia
Nas minhas mãos
Era um bilhete suicida
De um amor
Proibido

Que nunca foi...



Já não me espantam as curvas obliquas dos dias, quando, à tardinha, pego naquele mesmo livro que já esteve para ser lido não sei quantas vezes e com ele me sento no meu velho maple de veludo grená, empalidecido pelo mesmo tempo que me amarrotou as feições lisas do rosto. Mais uma vez o poiso no colo distraído e me rendo ao cansaço e ao mesmo abandono de todos os instantes suspensos no relógio sem pêndulo, que, lá no seu canto esquecido, do outro lado da sala, há muito que passou a rodar no sentido contrário, dando horas que já foram sem que ninguém tivesse dado por isso ou lhe contrariasse aquela estranha marcha sem sentido.

Acordo estremunhada e é aí que reparo que pela janela envidraçada, vai entrando mesmo sem licença, a claridade da noite que entretanto se foi chegando silenciosamente e se apoderou do resto que o dia não conseguiu segurar por mais tempo.
Levantei-me a custo, peguei na bengala e com passinhos curtos e entorpecidos, caminhei até à estante onde voltei a colocar cuidadosamente o livro que não li...
Lá fui cambaleante, apalpando a escuridão estreita daquele corredor que, subitamente, me vai parecendo cada vez mais comprido.



São vorazes
Os pensamentos
Que me chibatam
Constantemente
Estas já débeis
E tão frágeis
De carcomidas
Paredes
Em ruinas

Esborralhadas ruínas
Desta minha
Insana mente
Cujas fendas
Cada vez maiores
São passagens
Secretas
De bizarras demências
Que me vieram fustigar
A pacatez da vida

Passageiras clandestinas
Escondidas nos bolsos
Daquele outro
Que aos poucos
Me ocupou
O corpo
E me encarcerou
Para sempre
Nas masmorras
Do esquecimento
Despojando-me
De tudo aquilo
Que era meu!

De tudo aquilo
Que era eu...

Daquele que fora
Nada restou
Tudo da mente se foi
Se apagou...
Só o oco da razão
Ficou!

E por esse que eu já não sou
Não respondo
Nada digo
Pois que também
Nada sei

Deixem-me...
Exijo silêncio!

Que aqui
Agora
Mora um louco!
Um respeitável louco
Ainda que varrido
Da sua própria
Memória...


Segui pegadas
Do destino
Que bebi
Na fonte do acaso
De um encontro inesperado

Trouxeram-me alegrias
De espanto
Que me coloriram
A noite morna

Afinal
Eram minhas
Aquelas palavras
E foram por mim semeadas
Num certo chão de quimeras

Saboreei-as de novo
Uma a uma
Como se fossem novas
Como se fossem as primeiras
A bailarem-me nos olhos
Subitamente inundados
Pelas águas salgadas
De um oceano desgovernado

Erguendo ondas

E despertando sentimentos antigos
Adormecidos...

Souberam-me a tanto
Que nem tenho verbos
Que possa conjugar
No tempo certo
De um instante
Emocionante...
E impossível de olvidar!



O tempo
É um cavalo
Alado
Que percorre
Incansável
Planícies e planaltos
Sem idade...

Umas vezes
Vagaroso
Sem pressa
Outras
Como um raio
Que atravessa
A poeira das estrelas
Sem deixar rasto...

Ora a galope
Ora a trote
Correndo horas a fio
É vê-lo
Sempre elegante
Decidido
Inchado de vaidoso
Ostentando no dorso
O seu cavaleiro
Resignado...

Sem apelo
Nem agravo
Numa marcha imparável
Qual condenado
A caminho do seu inevitável
Degredo...


O relógio parou às dezanove horas e treze minutos de um dia aparentemente normal, igual a tantos outros. De repente uma estranha calma se abateu sobre a cidade e nem os animais tiveram tempo de pressentir o que se seguiu...

Após a morte da terra, dos homens e dos animais; os que sobreviveram, passaram a vaguear sem rumo, numa luta diária e constante pelas coisas mais simples que um ser humano nem se apercebe no seu dia a dia da importância que têm nem do quanto delas necessita para se manter vivo. A água ainda corria nos rios embora tivesse perdido a sua aparência cristalina e passasse a ser barrenta. Os mares também já não eram de tom azul, agora eram pardos, da cor das nuvens que os cobriam e que haviam tomado o lugar do céu outrora radiosamente azul. O sol não mais se viu...
A busca incessante pela comida não lhes dava descanso e parar onde quer que fosse, por mais tempo do que o necessário para revolver o interior das casas abandonadas em busca de algo que se pudesse trincar e enganar a fome, seria a morte certa! Havia grupos organizados de gente sem qualquer tipo de escrúpulos, que se dedicavam a caçar outros malogrados sobreviventes dos poucos que se tinham recusado a suicidar-se... e uma vez capturados, teriam como destino uma despensa de gente ainda viva para que se mantivesse a sua carne fresca durante mais tempo a fim de lhes saciar a fome.
As estradas desertas eram caminhos para nenhures.
A desolação era total e bem real. Porque não havia mais nada a não ser fome, frio, medo, cansaço, desesperança... morte.
Passou-se algures, num futuro cada vez mais próximo.


Hoje vesti-me de silêncio

E sou apenas ouvinte

Dos aplausos mudos

Que me ecoam

Ainda


Na mente...


Sou palhaço

A tempo inteiro

Dentro ou fora

Do meu palco

Que ri e faz rir

Ou que também chora

Por detrás da cortina

Quando se emociona

Como qualquer outro ser

Humano


Mas hoje apetece-me

Ser só um palhaço

De cara lavada

Sem riso

Nem choro

Velando o meu sonho

No embalo

Na tranquilidade

De um inquietante

Instante silencioso


E sorrio...


Sorrio

Para mim mesmo

Quando me penso

Ser um simples louco

Um louco

Que se ri de si mesmo

Assim...

... só porque sim!


E que mal fará isso?

Se hoje me sinto feliz...


... assim!