Senti as mãos
No algodão leve das nuvens…
Os raios de sol recolhem-se
E enxugam os templos…
Ouvem-se os sinos nas encostas
Cantam hinos às cegas.
Amansam-se os rituais…
Sinto-me cansada,
já não sinto frio…
Gotas orvalhadas
molham o meu corpo dormente…
E nesta inquebrável teia perco-me…
Já tinhas reparado?
Tranco-me por dentro…
Surgem gargalhadas, silhuetas, sombras,
escadas perversas…
Falas dispersas…
Tenho dias que sem saber escrever,
Arranjo um sonho para poder contar.
Não vendo poesia…
Palavras… versos…
TU, às vezes
és tão diferente…
irrelevante.
Trazes o mundo embalado nas tuas mãos
O amor em pedra bruta no Coração…
Eu quero ser assim
tal como sou…
E hoje
Não estou
P`ra ninguém
Marquei encontro com o silêncio…
Vem comigo minha amiga,
saltar juntas deste cume da vida
onde os poetas têm asas escondidas
Que nunca morrem…
Nota Final: Os meus pais nasceram sob calor o calor do sul.
Eu nasci em Lisboa, mas é depois do Tejo que me sinto em casa.
Compilação da Dr.ª Carmo Miranda Machado – Versos Extraídos da Colectânea “Tu Cá, Tu Lá”
Esta é uma antologia onde tenho o privilégio de também participar com alguns poemas meus.
No próximo Sábado, dia 17, será o dia da sua apresentação.
Se quiseres passar uma tarde diferente, aparece!
.............................................
Para uma informação mais detalhada, é só dar uma espreitadela ali na coluna lateral... está lá tudo ao pormenor.
Sem que ninguém o prevesse, surgiu de mansinho pela calada da madrugada, sob a forma de um esticão abrupto trazido na ponta de um raio inesperado, deixando no ar um estranho silêncio impregnado de mágoa e de culpa...
E assim, do nada, surgiu o espinho indesejado que se cravou fundo na carne.
Não se explicam palavras que nos saem inconscientemente sem aviso prévio, que as pudessem travar antes que o seu eco se ouvisse como pedras arremessadas a uma parede erguida numa fracção de segundo, esfacelando o que levou anos a construir.
Resta-nos o silêncio que ficou e nos mergulhou no desconforto da dor causada. Talvez o tempo dê razão ao conhecimento, que, agora, possuído pela estupidez do orgulho ferido, o impede de ver a verdade... e a leveza da mão que poise na consciência, chegue para nos aliviar do peso que nos esmaga e estraçalha a alma!
E assim, do nada, surgiu o espinho indesejado que se cravou fundo na carne.
Não se explicam palavras que nos saem inconscientemente sem aviso prévio, que as pudessem travar antes que o seu eco se ouvisse como pedras arremessadas a uma parede erguida numa fracção de segundo, esfacelando o que levou anos a construir.
Resta-nos o silêncio que ficou e nos mergulhou no desconforto da dor causada. Talvez o tempo dê razão ao conhecimento, que, agora, possuído pela estupidez do orgulho ferido, o impede de ver a verdade... e a leveza da mão que poise na consciência, chegue para nos aliviar do peso que nos esmaga e estraçalha a alma!
Regressei há dias, ainda que poucos tivessem dado pela minha volta. Mas voltei sorrateiramente, no dia certo e na hora exacta de um Setembro inesperadamente quente...
Cheguei disfarçado de um Verão serôdio, fora de tempo. Talvez por isso, tenha passado despercebido aos olhos dos mais distraídos, que se escondem na sombra do calor e se recusam a abandonar as praias meio desertas, numa tentativa desesperada de prolongar na pele o tom de bronze que lhes fica tão bem.
É vê-los sentados nas esplanadas à beira mar plantadas, lotadas até à última cadeira vaga que se acabou de ocupar de um traseiro ainda húmido e salgado...
... de copo de cerveja fresca na mão e conversas entrecaladas de sorrisos e gargalhadas que se desprendem das bocas, entre uma e outra baforada de fumo que um cigarro aceso entre os dedos, vai alimentando a fogo a tarde que se alonga até ao lusco fusco do dia que se finda num céu avermelhado e prometedor de uma noite serena, sem qualquer rasto de vento que a despenteie...
Mas desenganem-se todos os que me ignoram e se fazem de desatentos... porque eu voltei e trouxe comigo as folhas amarelecidas e vermelhas, que muito em breve pairarão pelos ares, despindo as árvores e oferecendo-lhes um tapete crocante que os vossos passos apressados não se cansarão de mastigar no caminho de ida e de volta, em qualquer lugar e para onde quer que vão.
Trago também as vindimas, presas nos cachos das uvas doiradas e maduras, que se dão e se espremem no ventre do vinho doce, desejoso do seu fervor que só culminará no escuro sossego da adega.
Trago ainda, as promessas da chuva que se atrasou na vinda, mas que virá.
Chamo-me Outono e voltei para vos lembrar de que o Verão já se foi... ainda que pareça que não!
Cheguei disfarçado de um Verão serôdio, fora de tempo. Talvez por isso, tenha passado despercebido aos olhos dos mais distraídos, que se escondem na sombra do calor e se recusam a abandonar as praias meio desertas, numa tentativa desesperada de prolongar na pele o tom de bronze que lhes fica tão bem.
É vê-los sentados nas esplanadas à beira mar plantadas, lotadas até à última cadeira vaga que se acabou de ocupar de um traseiro ainda húmido e salgado...
... de copo de cerveja fresca na mão e conversas entrecaladas de sorrisos e gargalhadas que se desprendem das bocas, entre uma e outra baforada de fumo que um cigarro aceso entre os dedos, vai alimentando a fogo a tarde que se alonga até ao lusco fusco do dia que se finda num céu avermelhado e prometedor de uma noite serena, sem qualquer rasto de vento que a despenteie...
Mas desenganem-se todos os que me ignoram e se fazem de desatentos... porque eu voltei e trouxe comigo as folhas amarelecidas e vermelhas, que muito em breve pairarão pelos ares, despindo as árvores e oferecendo-lhes um tapete crocante que os vossos passos apressados não se cansarão de mastigar no caminho de ida e de volta, em qualquer lugar e para onde quer que vão.
Trago também as vindimas, presas nos cachos das uvas doiradas e maduras, que se dão e se espremem no ventre do vinho doce, desejoso do seu fervor que só culminará no escuro sossego da adega.
Trago ainda, as promessas da chuva que se atrasou na vinda, mas que virá.
Chamo-me Outono e voltei para vos lembrar de que o Verão já se foi... ainda que pareça que não!
Não é o desprezo que me incomoda. Ele é só o fruto de uma ferida localizada bem no meio de um orgulho estupidamente cobarde, que não soube sarar de outra forma... sim, o desprezo é uma arma poderosa!
O que me incomoda mesmo, é nunca chegar a saber o que o gelo da aparente indiferença, grita nas entrelinhas do abismo de silêncios que ele próprio cavou...
O que me incomoda mesmo, é nunca chegar a saber o que o gelo da aparente indiferença, grita nas entrelinhas do abismo de silêncios que ele próprio cavou...
Às vezes
Não é preciso dizer nada...
Os olhares cúmplices
E as mãos entrelaçadas
Dizem o tanto
Que o silêncio afaga...
E as bocas
Permanecem caladas
Para que se não gastem
Os verbos importantes
Que mais tarde
Nos poderão fazer falta
Noutras conversas...
Noutros instantes...
Onde o silêncio
Por si só
Não bastará
E aí
Urge falar
A verdade!
Aquela verdade
Límpida
Pura
E cristalina
Como a água
Do sentimento
Que se esconde envergonhado
Por detrás de um beijo molhado...
... dos nossos corpos suplicantes
Dos nossos gestos nus
E dos nossos olhares mudos
De desejos
Inconfessáveis...
Não é preciso dizer nada...
Os olhares cúmplices
E as mãos entrelaçadas
Dizem o tanto
Que o silêncio afaga...
E as bocas
Permanecem caladas
Para que se não gastem
Os verbos importantes
Que mais tarde
Nos poderão fazer falta
Noutras conversas...
Noutros instantes...
Onde o silêncio
Por si só
Não bastará
E aí
Urge falar
A verdade!
Aquela verdade
Límpida
Pura
E cristalina
Como a água
Do sentimento
Que se esconde envergonhado
Por detrás de um beijo molhado...
... dos nossos corpos suplicantes
Dos nossos gestos nus
E dos nossos olhares mudos
De desejos
Inconfessáveis...
Estranhamente, dou comigo a segurar o queixo com ambas as mãos, inconscientemente alheia a tudo o que me rodeia.
Não me lembro de nada do que me perguntaste, ou sequer se me perguntaste alguma coisa...
Desliguei o botão da realidade a partir daquele instante em que a nossa conversa passou a ser um simples monólogo teu e as minhas sucessivas tentativas de participação e manifestações de entusiasmo, pura e simplesmente foram ignoradas. A minha boca foi obrigada a permanecer calada ainda que se tivesse aberto numa clara menção de intenção de falar, cheia de vontade de proferir ideias e pontos de vista. Tornaste-te o dono e senhor da palavra, remetendo-me ao silêncio involuntário com o papel de simples ouvinte, como tanto te convinha.
A tua determinação em mostrar o poder de liderança numa simples conversa banal, onde só tu é que contavas, onde só tu é que eras importante e tinhas coisas igualmente importantes para dizer, subestimando o que eu pudesse ter igualmente de importante para contar. Que ridícula forma essa que tens de te te afirmar!
Por isso, deixei de te ouvir e até de te ver, embora o meu corpo permanecesse diante de ti, com os olhos fixos no vazio cada vez maior, que as tuas palavras criavam em torno de nós.
A apatia tomou conta de mim e a minha mente salvou-me daquele purgatório, pegando nos meus pensamentos e voando dali para fora. Para bem longe do deserto onde me tinhas aprisionado e feito refém da tua mania egocêntrica de ser, teimosamente insistindo sempre em representar esse teu enfadonho e tão ridículo papel principal...
Não me lembro de nada do que me perguntaste, ou sequer se me perguntaste alguma coisa...
Desliguei o botão da realidade a partir daquele instante em que a nossa conversa passou a ser um simples monólogo teu e as minhas sucessivas tentativas de participação e manifestações de entusiasmo, pura e simplesmente foram ignoradas. A minha boca foi obrigada a permanecer calada ainda que se tivesse aberto numa clara menção de intenção de falar, cheia de vontade de proferir ideias e pontos de vista. Tornaste-te o dono e senhor da palavra, remetendo-me ao silêncio involuntário com o papel de simples ouvinte, como tanto te convinha.
A tua determinação em mostrar o poder de liderança numa simples conversa banal, onde só tu é que contavas, onde só tu é que eras importante e tinhas coisas igualmente importantes para dizer, subestimando o que eu pudesse ter igualmente de importante para contar. Que ridícula forma essa que tens de te te afirmar!
Por isso, deixei de te ouvir e até de te ver, embora o meu corpo permanecesse diante de ti, com os olhos fixos no vazio cada vez maior, que as tuas palavras criavam em torno de nós.
A apatia tomou conta de mim e a minha mente salvou-me daquele purgatório, pegando nos meus pensamentos e voando dali para fora. Para bem longe do deserto onde me tinhas aprisionado e feito refém da tua mania egocêntrica de ser, teimosamente insistindo sempre em representar esse teu enfadonho e tão ridículo papel principal...
Hoje matei um poema!
Assassinei-o a sangue frio ainda antes de ele nascer, quando o apanhei distraído a desenhar-se-me no vácuo do pensamento. Asfixiei-o até ao fim e nem senti qualquer remorso pelo acto do aborto... estrangulando-lhe sem piedade as artérias das palavras medonhas que se haviam gerado contra a minha vontade após ter ingerido alguns goles de sémen envenenado pela inveja da vingança estéril, num devaneio da minha mente. Caiu redondo no chão como um fruto apodrecido muito antes do tempo...Ninguém viu nada, ninguém ouviu um só gemido que fosse. Matei-o pela calada do meu silêncio, antes que o parisse num impulso e o abandonasse à sua sorte e à luz do dia, numa qualquer valeta pestilenta onde outros o encontrassem e o matassem de desprezo...

Tal como disse, fui de férias e voltei aos mesmos sítios de sempre, com a mesma alegria com que tantas vezes me revisito em pensamentos, através dos passeios que faço pelas memórias que tenho guardadas como tesouros de valor incalculável, de um tempo que me marcou profundamente...
******
Ontem voei no tempo com as asas emprestadas da emoção, quando me abeirei daquele cofre antigo e o abri com a mesma sensação indescritível de uma criança a quem se dá um brinquedo pela primeira vez...
Uma relíquia do passado que mais parecia um filme mudo onde os personagens se movimentavam com naturalidade, representando o seu próprio papel, sem qualquer encenação ou pose.
Cenas imortalizadas pelo olho mágico de uma câmara, objecto caro a que só alguns podiam chegar. E o meu padrinho podia! Por isso andava sempre de câmara em punho, filmando tudo o que lhe parecia digno de registo. Os filhos e os amigos, os passeios em família, a faina da aldeia em dias de acontecimentos importantes, como a malha do milho ou a matança do porco ou até o dia da festa anual em honra da santa padroeira da terra. A alegria das pessoas... os sorrisos... as gargalhadas... as traquinices dos miúdos... coisas tão simples mas que nem ele sabia o quanto um dia lhe haveriam de ser tão queridas, pelo seu valor de estima incalculável.
Embora tivesse consciência de que também eu era sugada para dentro dela junto com os outros miúdos com quem brincava naquela eira, onde a debulhadeira ruidosa não parava de cuspir, ora centeio, ora trigo de um dos lados e palha do outro. A minha mãe e todas as outras mães e avós não tinham descanso correndo de um lado para o outro, acudindo aqui e ali como podiam, que a máquina infernal assim o exigia, numa azáfama sem igual. Foi assim mesmo, que entraram pelo tal olho mágico daquela câmara de filmar adentro, sem se aperceberem. Na altura, nem sequer imaginava que algum dia viesse a ver o que ela guardava naquele momento...
Reconheci-os a todos de imediato, até aqueles que já morreram entretanto... e voltei a ser aquela pequena irrequieta, de vestido aos quadrados e chapéu de pano branco na cabeça, que brincava com os rapazes e gostava de fazer tudo o que eles também faziam. Saltava do muro e corria de novo em direcção ao mesmo pronta a repetir a proeza, sempre um nadinha mais alto.
Era um pedacinho pequenino de uma partícula do passado, suspensa por um fio a uma memória quase apagada, onde só uma leve lembrança ainda permanecia, por ser tão frágil quanto a tenra idade daquele fragmento de vida, que o tempo distanciou de mim.
E do nada, quatro décadas depois e sem o esperar, é-me oferecido este tesouro onde me revisitei à distancia de um simples clic...
Um tesouro que vale uma fortuna na escala do sentimento e que irei guardar com ternura para todo o sempre!
Uma relíquia do passado que mais parecia um filme mudo onde os personagens se movimentavam com naturalidade, representando o seu próprio papel, sem qualquer encenação ou pose.
Cenas imortalizadas pelo olho mágico de uma câmara, objecto caro a que só alguns podiam chegar. E o meu padrinho podia! Por isso andava sempre de câmara em punho, filmando tudo o que lhe parecia digno de registo. Os filhos e os amigos, os passeios em família, a faina da aldeia em dias de acontecimentos importantes, como a malha do milho ou a matança do porco ou até o dia da festa anual em honra da santa padroeira da terra. A alegria das pessoas... os sorrisos... as gargalhadas... as traquinices dos miúdos... coisas tão simples mas que nem ele sabia o quanto um dia lhe haveriam de ser tão queridas, pelo seu valor de estima incalculável.
Embora tivesse consciência de que também eu era sugada para dentro dela junto com os outros miúdos com quem brincava naquela eira, onde a debulhadeira ruidosa não parava de cuspir, ora centeio, ora trigo de um dos lados e palha do outro. A minha mãe e todas as outras mães e avós não tinham descanso correndo de um lado para o outro, acudindo aqui e ali como podiam, que a máquina infernal assim o exigia, numa azáfama sem igual. Foi assim mesmo, que entraram pelo tal olho mágico daquela câmara de filmar adentro, sem se aperceberem. Na altura, nem sequer imaginava que algum dia viesse a ver o que ela guardava naquele momento...
Reconheci-os a todos de imediato, até aqueles que já morreram entretanto... e voltei a ser aquela pequena irrequieta, de vestido aos quadrados e chapéu de pano branco na cabeça, que brincava com os rapazes e gostava de fazer tudo o que eles também faziam. Saltava do muro e corria de novo em direcção ao mesmo pronta a repetir a proeza, sempre um nadinha mais alto.
Era um pedacinho pequenino de uma partícula do passado, suspensa por um fio a uma memória quase apagada, onde só uma leve lembrança ainda permanecia, por ser tão frágil quanto a tenra idade daquele fragmento de vida, que o tempo distanciou de mim.
E do nada, quatro décadas depois e sem o esperar, é-me oferecido este tesouro onde me revisitei à distancia de um simples clic...
Um tesouro que vale uma fortuna na escala do sentimento e que irei guardar com ternura para todo o sempre!
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