O lusco fusco era a hora perfeita. Desliguei o botão do aparelho que me obrigava a permanecer no mundo real e voltei ao meu lugar secreto, para onde fujo sempre que posso, levada pelo embalo dos meus pensamentos...
A lua já tinha subido meio palmo no horizonte, desde a sua silenciosa chegada. Ali estava ela, imponente e divina! A deusa daquele céu imenso, de tom alaranjado, agora ainda mais belo, à medida que a lua o ia banhando de prata.
Aproximei-me vagarosamente da janela do tempo e debrucei-me sob o parapeito das minhas lembranças, que, manhosamente, me levaram para um lugar tão distante dali...
Revisitei-me numa outra vida, vivida em segredo e há muito tempo. Secretamente guardada num baú invisível, qual tesouro pirata que só eu sei onde está.
Ali fui até rainha! A rainha de um reinado estranho e misterioso. Só meu!
Nesse reino onde havia também um escravo... um servo que, quando queria , sabia ser dedicado, ao ponto de me fazer sentir especial sem o ser... a cumplicidade era o nosso reino cheio de regras impostas pelo meu sentimento. Ainda sinto o perfume do pecado no ar... o sabor adocicado do proibido... onde a loucura tomava as rédeas da envolvente sedução, desbravando os caminhos que nos levavam até aos limites do irracional...
Mas houve um dia, que o orgulho falou mais alto e compreendi o quanto ele pode ser severo e cruel, desencadeado por um outro sentimento, que eu sabia existir em mim, mas não nele. Pois ardi muitas vezes, nas labaredas do ciúme, que me consumiam a alma até mais não poder. Sofri tudo isso em silêncio, sem nunca mostrar um só sinal de sofrimento, transformando as chagas em sorrisos. Talvez para que não acordasse a vontade do abandono, que eu não queria, mas sabia estar latente e pacientemente à espera de uma oportunidade. Achava-me forte!
Mas há sempre um fim para tudo. E o dia do fim daquele meu reinado, tinha finalmente chegado pela noitinha .Naquele dia soltei as amarras que me prendiam a algo que no fundo eu sabia ser uma ilusão.Fiquei livre, mais leve e muito mais solta. Aprendi uma grande lição, não se pode querer o que não nos serve!
Aprendi aos poucos a ter confiança em mim.Aprendi a ser EU!
Não tenho saudades, mas foi para lá que o meu pensamento me levou hoje.
Já de regresso ao mundo real, retomo as tarefas banais de mais um fim de dia, tão igual ao de ontem, tão igual ao de amanhã... até que chegue aquela hora mágica, que me levará de novo ao cais dos meus pensamentos.Num outro lugar, num outro tempo...




A noite desceu
Sob o horizonte
Dos meus sonhos...

Caiu uma bomba
Vinda dos céus
Há mortos espalhados
Por todo o lado!

Não sei onde estou
Não tenho para onde ir
Escureceu tudo à minha volta...

Onde estará a minha mãe
Que não me vem buscar?

Grito...
Mas ninguém me ouve
Nem o meu pai
Nem os meus irmãos
Onde estão os meus amiguinhos?
Terão eles morrido também?

Não...
Não pode ser!

Estou aqui
Sozinha
No fundo deste abismo
Num vale sombrio
Sem árvores
Sem pássaros
Sem chão...
Tenho medo!

Nada se move
À minha volta
Sinto um cheiro forte
Nauseabundo
A carne queimada

Grito de novo
Ninguém me ouve
Ninguém me procurou ainda
Ninguém deu pela minha falta...

Estou só
No vale da morte
Sou orfã de mim mesmo!...



Dia 08/11/2008, 16H, Salão Nobre do Paço do Sobralinho (A1, entre Alverca e Vila Franca de Xira), "No Princípio era o Sol" (Poesia)

Mais um livro da minha querida amiga Mel de Carvalho (a quem dediquei este post), dona e senhora das palavras, e por quem tenho uma grande admiração. Entretanto e se quiserem, podem ver aqui alguns dos seus trabalhos em prosa e aqui, em poesia.


Amanheceste no meu pensamento
E por um breve momento
Olhaste-me e sorriste-me
Como se me quisesses dizer algo bonito
Apenas com o olhar...

Vesti-me de ti
Com as lembranças que ficaram
Guardadas nas tuas gavetas
Que não esvaziei nunca

Conversei contigo
Em monólogo
Sobre coisas pequenas
Coisas nossas
Que só eu e tu entendemos

Depois
Peguei-te ao de leve na mão
E levei-te até lá fora
Ao nosso jardim
Para que as visses...
Como estavam lindas as rosas
Aquelas que tu plantaste
Um mês antes de partires...

Sentei-me no nosso banco de verga
Debaixo do nosso alpendre
Deitaste a tua cabeça no meu colo
E ali
No nosso refúgio de sonhos
Que construí para ti
Finalmente dei-me conta
Da tua presença ausente
Que me enlouqueceu a mente
E me faz procurar-te até no pó
E encontrar-te apenas
Nas saudades que tenho de ti...!



No próximo dia 4 de Outubro, vai ser lançada a colectânea “Arte pela Escrita - Colectânea de prosa e poesia”, uma obra que faz a compilação de textos de 37 autores que por norma se encontram no café virtual do EscritArtes, e onde figurará um poema escrito por mim.
São 37autores, no total, oriundos do Minho ao Algarve, passando pelas regiões autónomas e pelo Brasil. Uma montra do que, em prosa e poesia, se vai fazendo em língua portuguesa.
O lançamento acontece no dia 4 de Outubro, pelas 14h30 no Clube Literário do Porto.Se puder e quiser participar, não falte!


Pressinto-te aí
Do outro lado
Atento
Ao vazio do que escrevo...
Não te vejo
Não te escuto
Pressinto-te apenas...

Ofereces-me respostas mudas
Às perguntas que não te faço
Mas que se lêem
Algures
Nas páginas em branco
De um livro já gasto
Acorrentado à ilusão
Neste universo de letras...

Sigo-te os passos
Cansados
No rasto que me deixas
Das palavras intemporais
Poderosas
Sou aprendiz de poeta
Sequiosa
Do teu sabor do saber...
Bebo pequenos goles
Que me chegam à boca
E me escorrem pelo sentir
Desse mesmo prazer
Enquanto sigo
A caminho de nenhures...

Pressinto-te
Em ecos surdos
Que me ensurdecem a mente
Espalharam-se e cravaram-se
Como pregos
Sem cabeça
Neste muro de silêncios
Que nos aproxima
E nos afasta...


É na escuridão da noite
À boleia do silêncio
Que me faço ao caminho...

Percorro os becos escuros
As vielas estreitas
Das minhas incertezas
Procuro-me...

Não anseio riquezas
Nem vaidades
Sou feliz
Com a minha simplicidade
Basta-me a paz e a serenidade...

Ouço passos
Escondo-me
Por detrás do meu próprio silêncio
Não me quero mostrar...
Cansam-me os ideais dos outros
As banalidades
As futilidades
Os sorrisos forçados
As grandezas encapotadas
De gente pedante e frustrada!

Permaneço calada
E assisto de longe
Ao decadente espectáculo
Das vidas engalanadas
Enganadas...
Basta apenas um só minuto
E tudo desaba!

De volta ao meu mundo
E à escuridão da minha noite
Silenciosamente
Avisto-me ao longe
Na esquina do futuro
Estou ali parada
Pareço indecisa
Balançando
Entre o ir
... e o ficar...

****************


No próximo dia 27 de Setembro, pelas 15 horas, no Auditório da Câmara Municipal da Amadora, Paulo Afonso Ramos vai lançar o seu livro "Mínimos Instantes", com belas prosas poéticas, que certamente a todos seduzirá.






De regresso ao presente
Trago comigo um saco
Cheio de velhas memórias
Que fui buscar ao passado

Coisas minhas
Que mais ninguém viu... só eu!

Sonhos de criança
Desejos de adolescente
Emoções antigas
Ilusões...

Pequenos retalhos
De outras vidas
Que ficaram suspensas no tempo...

Encontrei-as por acaso
Espalhadas pela velha casa
Na sala
Nos quartos
No vão da escada
Estavam em todo o lado...

Algumas estavam bem à vista
Bastou fechar os olhos
E toca-las
Com o sentimento da saudade...

Outras
Estavam escondidas
Num velho baú pintado de verde
Em cima do guarda-fatos
[Já não estava fechado à chave como antigamente...]
Abri-o e vasculhei-o!
Eram fotografias
Algumas já quase apagadas
Pela borracha implacável
Do tempo

Velhos retratos
De gente que me sorria
Mas que eu não reconheci
[Talvez tivessem ficado felizes por me verem ali]
Fantasmas imortalizados
De outras memórias
Que não lhes sobreviveram...

Perdi-me e encontrei-me
No meio de todas aquelas relíquias
Naquela viagem ao passado
Numa pequena foto a preto e branco
Uma menina de expressão meiga
Teria uns cinco anos
Nem me sabia ali...
Nunca ninguém me tinha dito

Fechei o baú
E arrumei-o no sítio onde estava
Mas antes esvaziei-o
Trouxe tudo comigo
Em pensamento...


******

Obrigado Luso-Poemas!



A vida é feita de muitas coisas... Coisas simples e pequenas ou grandes e complicadas, com que nos vamos deparando ao longo dos caminhos que escolhemos e que vamos desbravando a cada novo dia que nasce. Umas vezes tropeçando e caindo, espalhando-nos ao comprido... outras, seguindo em frente, sem dar tréguas ao equilíbrio, aguentando até as maiores tempestades, usando uma força vinda das profundezas do nosso ser, até então desconhecida... avançamos então, mais confiantes e sem medo, descobrindo-nos a nós mesmos. E assim nos vamos passeando pela vida ao sabor do destino, enfrentando todos os obstáculos que nos vão aparecendo pelo caminho que escolhemos naquela encruzilhada sem placas... colhendo os frutos doces ou amargos, vivendo ou sobrevivendo, umas vezes sabendo o terreno que pisamos, outras vezes deixando-nos apanhar pelas areias movediças que se escondem por baixo da folhagem solta. O destino... somos nós que o fazemos em parte, muitas vezes, ousando até, desafiar os nossos limites! Ou então... deixando-nos desfalecer, sem mais forças que cheguem para vencer... rendidos ao cansaço. Está em cada um de nós, saber escolher os caminhos certos, que farão a diferença entre os vários destinos que nos espreitam e nos esperam nas encruzilhadas. Eu, tive a felicidade de ter encontrado o caminho certo, que espero, me leve sem mais sobressaltos, como aconteceu no passado. E porque me sinto tranquila e feliz, quero partilhar com todos vós, um pouquinho mais de mim. Porquê?



**********************************

Meus amigos, sei que estou em falta com a maioria de vós, mas de momento não me é possível retribuir todo o carinho que me têm demonstrado através das vossas mensagens na caixinha dos comentários. Assim que tiver um pouquinho mais de disponibilidade, visitar-vos-hei com muito prazer. Acho que vos devia esta atenção...





É uma fada em corpo de mulher
Uma menina doce
Que tem até, mel no seu nome...
Sabe brincar com as palavras
De todas as formas reais, possíveis e impossíveis
E até imaginárias…
Como nunca o vi em ninguém!
Usa um vestido lindo
Feito por si
Tricotado com o linho da humildade
Quando diz não ser poeta
Mas apenas e só
… sua aprendiz!
Assim… sem vaidades
Sem falsas modéstias
Fala das suas vidas passadas
(Acredita que teve várias...)
Com a mesma intensidade
Como se estivesse ainda dentro delas!
Fala das suas dores, que lhe arrancam até as entranhas...
Das desilusões
De amores e desamores…
Dos caminhos que trilhou, por atalhos entre silvados, em bosques sombrios...
Mas fala também do mar
Do seu maravilhoso e indizível mar...
Por quem um dia se apaixonou
E foi num desses momentos a ele dedicados
Em que, tão embevecida, o admirava
Entre uma e outra onda
Da sua espuma branca, se soltou um presente
Que o seu amado lhe oferecia…
Correu à beira da água e apanhou algo da areia molhada
Era algo pequeno mas tão precioso
Que lhe abriria a porta grande, por onde haveria de entrar, triunfante…
Mas afinal que presente misterioso seria aquele?
Era tão somente
… a chave do Amor!
Certa vez, quis o destino
Que os nossos caminhos se cruzassem
Para que eu pudesse sentir
Todo o seu carinho
E verdadeira amizade
Vindo lá do fundo
Da sua alma grande e imensamente generosa
Podem até, passarem-se séculos ou milénios
O que for...
Mas nunca mais, nos haveremos de perder uma da outra
Duas almas gémeas, (tão iguais e tão diferentes...)
Muito menos... esquecer!



Dedicado a uma pessoa por quem tenho um grande carinho e uma enorme admiração

Mel de Carvalho


Meus amigos, volto em Setembro!