Gosto de remexer nos cacos da minha história, que guardei como relíquias de valor incalculável. Revolver o amontoado de lembranças, sentir o seu cheiro, que, por instantes, me levam ao sítio e ao tempo a que pertencem, fazendo com que reviva os melhores pedaços da minha vida passada, sem sentir grandes saudades dos que ainda não vieram. Talvez venham, talvez nem venham...
De quando em quando, dou longos passeios pelo que me resta do que a minha mente não apagou ainda. Só dou conta de mim, quando me vejo ali sentada de novo, no meu jardim de melancolias perfumadas a folhear os meus álbuns antigos, onde guardei alguns dos meus melhores momentos. A maior parte, são pertença da minha infancia. Uma infancia que me visita vezes sem conta e quase todos os dias.
Quedo-me em cada um deles e é aí que a magia acontece... num piscar de olhos, revejo-me do lado de dentro das imagens que me povoam o pensamento. Sou eu ali, como se estivesse sentada no sofá da minha sala, a assistir a uma cena de um filme. Só que, desta vez, trata-se do meu próprio filme. E não deve ser por acaso que desempenho o papel principal, ou não fosse eu a protagonista da minha própria vida!...
Neste filme antigo, cujo elenco ali se mantém bem vivo, apesar de já terem morrido uma boa parte deles; as cores já um pouco esbatidas pela minha memória, ainda realçam na perfeição as imagens onde me revejo, como se o tempo tivesse parado e eu nunca tivesse dali saído. É por isso que vos digo, que não tenho saudades do futuro...
Quanto mais me confronto com os anos passados, que se vão acumulando no sótão das minhas memórias, mais antigos se tornam os do futuro. E sendo assim, não tenho pressa de coisa nenhuma, muito menos de apressar o tempo, ansiando os melhores anos que nunca mais chegam... pois que esses, esses já passaram!
Poucos são os que dão por isso.



A noite estava fria, tão fria que ninguém fazia ideia.As ruas desertas eram agora mais tristes ainda. De dia nem se notava, tudo parece mais agradável, camuflado pelos ruídos de fundo e o reboliço normal da vida. Pessoas e carros correm desenfreados para um qualquer compromisso inadiável, como se tudo dependesse da pressa que levam na ponta dos minutos que lhes restam para a hora certa... como se as suas vidas dependessem apenas disso. Chegar a qualquer lado a tempo e não ser repreendido nem penalizado por isso. Ou mais grave ainda, perder algo de que se arrependesse para todo o sempre...
Mas o dia já terminara há um bom par de horas e aos poucos as ruas foram-se esvaziando. Ficaram só os que não se conseguem separar delas, os que há muito passaram a fazer parte delas, como se fossem bibelots ou guardiões notívagos da cidade.
A temperatura baixou repentinamente e apanhou-os desprevenidos, nem as caixas de cartão novas que trouxeram das traseiras das boutiques vizinhas e os cobertores coçados que já tinham, lhes chegavam para se resguardar do frio cortante da noite. Alguns desistiram de resistir, levantaram-se e fizeram fogueiras em latas de tinta velhas que arranjaram na obra ali ao lado, paredes meias com o passeio das arcadas onde se costumavam deitar, por ser coberto e o mais recolhido das redondezas. As chamas aqueciam-lhes as mãos geladas e o vinho da garrafa que partilhavam gole a gole, tratava de lhes aquecer a alma empedernida pela cicatriz da solidão de cada um, naquela que era a noite mais triste de todas as que o ano tinha.
Talvez se não houvesse Natal, as noites fossem só noites. Umas mais frias do que outras, mas só mais uma noite sem qualquer outro significado que a tornasse mais triste ou menos triste do que as outras.



No acaso de um acaso, encontraram-se só no ocaso do dia e... por acaso.
E não foi por acaso que a empatia foi brutal!
Palavra puxa palavra, sorriso puxa sorriso e num ápice se elevaram ao pico as emoções indizíveis que se erguem do nada... e sem mais perdas de tempo, saltaram alguns dos pormenores da conquista emocional e procuraram um lugar tranquilo, num recanto da praia já deserta, longe de olhares indesejados, para saciarem o que os corpos lhes imploravam em outros olhares, em outros apelos mais carnais do que emocionais. Talvez mais tarde se dedicassem a isso com mais perfomance... não podiam nem queriam deixar passar aquele instante tão... tão... fortuito e ao mesmo tempo, furtivo.
E antes que se fizesse tarde, não se entregaram ao descaso, sob pena de desperdiçarem o pouco do tempo que tinham, para viverem o tanto que desejavam.
E num impulso, entregaram-se de novo ao saboroso acaso, desta feita, quando já despiam a pouca roupa que ainda lhes restava, para que nada lhes atrapalhasse o mergulho nas teias da paixão inflamada, num fulgor indescritível de total comunhão de corpo e alma.
Há casos e casos... mas um caso assim, que nasceu de um acaso do acaso no ocaso sem descaso, é algo fenomenal!...




Afogo as mágoas
Neste copo
Sem fundo
Que me engole
A alma
Até à última gota...

Como águia
Ferida de morte
Desço a pique
Num mergulho
Vertiginoso
Rasando a vida
Por um fio...

Anoiteço e amanheço
Com um só
Pensamento
E são tão fortes
As pancadas deste martelo
Que me dilacera
O cérebro
Que me endoidece!
E bebo...
Bebo para o esquecer

A minha companhia
É a mesma de sempre
O ópio que me domina
E... Eu mesmo!
Envolto em brumas
Que me turvam os olhos
Empardecendo-me o caminho
De todos os dias

E tudo o que quero
É afinal tão simples
Esquecer...
Esquecer tudo
Tudo!

Esquecer até
... que existo!...


Chamo-me Mariana e tenho oito anos de idade. Nasci a vinte e nove de Fevereiro de um ano qualquer que se perdeu do calendário...
Sou filha de um homem que nunca vi. A minha mãe é prostituta por necessidade, condição imposta pela vida de droga que escolheu e não conheci nenhum outro familiar. Nem avó, nem avô, nem tios ou primos.
Não sei a que cheira o mar, não sei a cor que tem o céu, nem sequer conheço o som de um comboio a apitar...
A minha curta vida foi passada num hospital, para onde me levaram pouco depois de me terem encontrado abandonada numa valeta de uma estrada quase deserta, por onde, por sorte, alguém passou naquela noite de chuva e me ouviu chorar.
Nasci subnutrida, cega, surda e nunca cheguei a andar...
Tenho oito anos de idade, mas não passei de um mês de vida. Morri algum tempo depois, por não me conseguirem salvar.
Neste jardim existem muitas flores, muitas campas bonitas, onde estão enterradas pessoas importantes, com fotografias coladas nas pedras mármore ou de granito e dizeres bonitos escritos a letras douradas. A minha não tem nada disso, apenas uma cruz de madeira assinala o sítio onde me encontro. E as árvores... as árvores têm um cheiro esquisito, um cheiro a cemitério.
O meu nome é Mariana, tenho oito anos e este é o meu túmulo!
Nunca ninguém me veio trazer flores...






Texto triste que escrevi para o livro - "Trago-te um sonho nas mãos". Porque a vida não é feita só de alegrias nem de coisas bonitas...
Esta antologia conta com a colaboração de diversos autores do site Luso Poemas, que se uniram para dar o seu contributo a favor da instituição:ASAS
(Associação de solidariedade e acção Social) em Sto. Tirso.O lançamento será feito no dia 5 de Dezembro de 2009, pelas 15.30h, no Mosteiro de Tibães em Braga, nas antigas cavalariças do Mosteiro. Só me resta dizer, que este evento está integrado no VI Encontro do Luso-Poemas.

Se também quiser ajudar e se por acaso estiver por perto, não hesite e apareça também!


Olho
Nos olhos rugosos

De pessoas apáticas

Ou sorumbáticas

Que buscam

Obliterando

O presente
E o futuro,
Solução
Para um mundo

Supra decadente(!)

Encontro,
Casualmente,

A controversão
Nos olhos de alguém,

Que,

Sobranceiro a ele

Extravasa

Toda a sua alegria(?)

Liberdade,

Euforia...

Forever?


(23-VII-83 _ Florentino)


Poema de um amigo meu de longa data, que me marcou bastante na minha adolescência, talvez pelas suas ideias religiosas já bastante vincadas na altura e que me levaram a admirar a sua fé incondicional e vontade de contagiar quem consigo privasse mais de perto. Por circunstancias da vida, perdi-lhe o rasto e há já quase trinta anos que nada sabia dele... há uns dias atrás e por um acaso, reencontrei-o aqui. Movida pela curiosidade, pesquisei pelo seu nome na net e o que encontrei foi isto... Florentino Lavrador, uma pessoa humilde como o era o berço onde nasceu. Oriundo de uma aldeia da minha freguesia(Dreia). Um homem de uma fé extrema, que o levou a viajar até ao outro lado do mundo, numa missão tão sua, a de espalhar a sua enorme bondade e convicção religiosa, junto dos povos mais desfavorecidos deste nosso planeta.



Junto-lhe uma imagem de si próprio enquanto jovem e que guardei religiosamente ao pé de todas as outras que me ofereceu, a maior parte de flores e paisagens nocturnas da sua bela cidade que o acolhia na época.

Era um poeta, um missionário e um amigo(dos primeiros amigos a sério que tive).
Faleceu há poucos dias...
Esta é a minha singela homenagem em sua memória!


Levo aos teus cabelos, os meus dedos ainda molhados das águas doces do meu rio, de quem me vim despedir neste fim de tarde, tão longe de te encontrar... Afago-os com a mesma ternura com que o meu olhar cansado se deita com o teu, sob o manto da magia de um instante, na quietude deste nosso encantado e silencioso entardecer...
Nesta margem de onde te avisto com os olhos da lembrança, ergui um altar imaginário, onde venho sempre que a saudade de ti me assalta sem avisar.
Neste rio te conheci, te amei e te perdi... mas é neste rio também, que te reencontrarei sempre que a minha vontade o desejar.



Hoje não me apetecem as palavras. Por isso, quedo-me no silêncio que a imagem sugere e no som que se ouve em fundo. Há dias em que não precisamos de escrever nada, basta sentir o instante...




Entre um ontem
Já distante
E um amanhã
Ainda longínquo
Há um tempo indefinido
Que o relógio vai marcando
No compasso vazio
Meio cheio de esperança
Por onde vai caminhando
A vida

Entre as memórias
Da lembrança
Que o vento não levou
E o que ainda falta
Do caminho
Lá vai o pobre do engano
Entretido com o sonho
Que toda a vida
Consigo guardou

Ruma decidido!
A passos firmes!
Seguindo as coordenadas do deserto
Que até daqui se avista
No horizonte
Do desconhecido...

Soubera eu o quanto
Do pouco
Que ainda me resta
E não desperdiçaria tanto
Com a ilusão
De que tudo isto
É o que me completa...

Mas que mais poderei eu fazer?
Se do tanto
Que poderia ser
E não fui
Nada guardei
A não ser as penas...

Iludo-me!
Bem sei
Mas mil vezes esta insana
Àquela outra que desiste
E se entrega ébria
Ao malogrado desespero
Do desmazelo da inércia
E se deita
Com ele na cama
Da infinita espera
Sem chegar a conhecer
O fim do caminho!




Havemos de nos encontrar um dia, na esplanada do entardecer, naquela mesa do canto, junto às escadas que dão para o areal da praia onde te inventei.
Levarei o meu vestido amarelo, que alguém me ofereceu em pensamento, numa das muitas vezes em que me senti uma pequena rainha, no meu reino do faz de conta...
Entrançarei os meus longos cabelos numa só trança, que se estenderá pelas minhas costas nuas, mas deixarei solta aquela madeixa branca que o tempo me ofereceu e que tu tanto gostaste aquando do meu sonho. Disseste-me até, que me dava um certo charme... um ar de mulher madura e ciente daquilo que quer. Calçarei uns sapatos vermelhos de salto alto, ainda que sejam os primeiros e últimos - algum dia teria de ser... sei o quanto gostas de apreciar a elegância feminina em todo o seu esplendor, vejo-o no teu olhar de homem de gosto refinado e sinto-o no teu querer de macho sedutor. No prazer que te dá quando olhas para trás duas ou três vezes, após te teres cruzado, por acaso, com uma mulher bonita e bem vestida, na rua.
Ainda não sei se me maquilharei, pois nunca aprendi a fazê-lo e talvez não me saia bem.
Ainda assim, encontrar-me-às de aspecto jovem, mesmo que já não o seja.
Estarei à tua espera, no sítio que te falei em devaneio, lembras-te? Aquela tal conversa que nunca chegamos a ter...
Esperar-te-ei ao entardecer de um dia de sol, que, ninguém supõe terminar em nevoeiro. Mas assim há-de ser!
Se puderes aparecer...




Senti as mãos
No algodão leve das nuvens…

Os raios de sol recolhem-se
E enxugam os templos…
Ouvem-se os sinos nas encostas
Cantam hinos às cegas.
Amansam-se os rituais…

Sinto-me cansada,
já não sinto frio…
Gotas orvalhadas
molham o meu corpo dormente…
E nesta inquebrável teia perco-me…

Já tinhas reparado?
Tranco-me por dentro…

Surgem gargalhadas, silhuetas, sombras,
escadas perversas…
Falas dispersas…

Tenho dias que sem saber escrever,
Arranjo um sonho para poder contar.
Não vendo poesia…
Palavras… versos…
TU, às vezes
és tão diferente…
irrelevante.
Trazes o mundo embalado nas tuas mãos
O amor em pedra bruta no Coração…

Eu quero ser assim
tal como sou…

E hoje
Não estou
P`ra ninguém
Marquei encontro com o silêncio…

Vem comigo minha amiga,
saltar juntas deste cume da vida
onde os poetas têm asas escondidas
Que nunca morrem…

Nota Final: Os meus pais nasceram sob calor o calor do sul.
Eu nasci em Lisboa, mas é depois do Tejo que me sinto em casa.

Compilação da Dr.ª Carmo Miranda Machado – Versos Extraídos da Colectânea “Tu Cá, Tu Lá”


Esta é uma antologia onde tenho o privilégio de também participar com alguns poemas meus.
No próximo Sábado, dia 17, será o dia da sua apresentação.
Se quiseres passar uma tarde diferente, aparece!
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Para uma informação mais detalhada, é só dar uma espreitadela ali na coluna lateral... está lá tudo ao pormenor.


Sem que ninguém o prevesse, surgiu de mansinho pela calada da madrugada, sob a forma de um esticão abrupto trazido na ponta de um raio inesperado, deixando no ar um estranho silêncio impregnado de mágoa e de culpa...
E assim, do nada, surgiu o espinho indesejado que se cravou fundo na carne.
Não se explicam palavras que nos saem inconscientemente sem aviso prévio, que as pudessem travar antes que o seu eco se ouvisse como pedras arremessadas a uma parede erguida numa fracção de segundo, esfacelando o que levou anos a construir.
Resta-nos o silêncio que ficou e nos mergulhou no desconforto da dor causada. Talvez o tempo dê razão ao conhecimento, que, agora, possuído pela estupidez do orgulho ferido, o impede de ver a verdade... e a leveza da mão que poise na consciência, chegue para nos aliviar do peso que nos esmaga e estraçalha a alma!



Regressei há dias, ainda que poucos tivessem dado pela minha volta. Mas voltei sorrateiramente, no dia certo e na hora exacta de um Setembro inesperadamente quente...
Cheguei disfarçado de um Verão serôdio, fora de tempo. Talvez por isso, tenha passado despercebido aos olhos dos mais distraídos, que se escondem na sombra do calor e se recusam a abandonar as praias meio desertas, numa tentativa desesperada de prolongar na pele o tom de bronze que lhes fica tão bem.
É vê-los sentados nas esplanadas à beira mar plantadas, lotadas até à última cadeira vaga que se acabou de ocupar de um traseiro ainda húmido e salgado...
... de copo de cerveja fresca na mão e conversas entrecaladas de sorrisos e gargalhadas que se desprendem das bocas, entre uma e outra baforada de fumo que um cigarro aceso entre os dedos, vai alimentando a fogo a tarde que se alonga até ao lusco fusco do dia que se finda num céu avermelhado e prometedor de uma noite serena, sem qualquer rasto de vento que a despenteie...
Mas desenganem-se todos os que me ignoram e se fazem de desatentos... porque eu voltei e trouxe comigo as folhas amarelecidas e vermelhas, que muito em breve pairarão pelos ares, despindo as árvores e oferecendo-lhes um tapete crocante que os vossos passos apressados não se cansarão de mastigar no caminho de ida e de volta, em qualquer lugar e para onde quer que vão.
Trago também as vindimas, presas nos cachos das uvas doiradas e maduras, que se dão e se espremem no ventre do vinho doce, desejoso do seu fervor que só culminará no escuro sossego da adega.
Trago ainda, as promessas da chuva que se atrasou na vinda, mas que virá.
Chamo-me Outono e voltei para vos lembrar de que o Verão já se foi... ainda que pareça que não!



Não é o desprezo que me incomoda. Ele é só o fruto de uma ferida localizada bem no meio de um orgulho estupidamente cobarde, que não soube sarar de outra forma... sim, o desprezo é uma arma poderosa!
O que me incomoda mesmo, é nunca chegar a saber o que o gelo da aparente indiferença, grita nas entrelinhas do abismo de silêncios que ele próprio cavou...




Às vezes
Não é preciso dizer nada...

Os olhares cúmplices
E as mãos entrelaçadas
Dizem o tanto
Que o silêncio afaga...

E as bocas
Permanecem caladas
Para que se não gastem
Os verbos importantes
Que mais tarde
Nos poderão fazer falta

Noutras conversas...
Noutros instantes...

Onde o silêncio
Por si só
Não bastará

E aí
Urge falar
A verdade!

Aquela verdade
Límpida
Pura
E cristalina
Como a água

Do sentimento
Que se esconde envergonhado
Por detrás de um beijo molhado...

... dos nossos corpos suplicantes
Dos nossos gestos nus
E dos nossos olhares mudos

De desejos
Inconfessáveis...



Estranhamente, dou comigo a segurar o queixo com ambas as mãos, inconscientemente alheia a tudo o que me rodeia.
Não me lembro de nada do que me perguntaste, ou sequer se me perguntaste alguma coisa...
Desliguei o botão da realidade a partir daquele instante em que a nossa conversa passou a ser um simples monólogo teu e as minhas sucessivas tentativas de participação e manifestações de entusiasmo, pura e simplesmente foram ignoradas. A minha boca foi obrigada a permanecer calada ainda que se tivesse aberto numa clara menção de intenção de falar, cheia de vontade de proferir ideias e pontos de vista. Tornaste-te o dono e senhor da palavra, remetendo-me ao silêncio involuntário com o papel de simples ouvinte, como tanto te convinha.
A tua determinação em mostrar o poder de liderança numa simples conversa banal, onde só tu é que contavas, onde só tu é que eras importante e tinhas coisas igualmente importantes para dizer, subestimando o que eu pudesse ter igualmente de importante para contar. Que ridícula forma essa que tens de te te afirmar!
Por isso, deixei de te ouvir e até de te ver, embora o meu corpo permanecesse diante de ti, com os olhos fixos no vazio cada vez maior, que as tuas palavras criavam em torno de nós.
A apatia tomou conta de mim e a minha mente salvou-me daquele purgatório, pegando nos meus pensamentos e voando dali para fora. Para bem longe do deserto onde me tinhas aprisionado e feito refém da tua mania egocêntrica de ser, teimosamente insistindo sempre em representar esse teu enfadonho e tão ridículo papel principal...



Hoje matei um poema!

Assassinei-o a sangue frio ainda antes de ele nascer, quando o apanhei distraído a desenhar-se-me no vácuo do pensamento. Asfixiei-o até ao fim e nem senti qualquer remorso pelo acto do aborto... estrangulando-lhe sem piedade as artérias das palavras medonhas que se haviam gerado contra a minha vontade após ter ingerido alguns goles de sémen envenenado pela inveja da vingança estéril, num devaneio da minha mente. Caiu redondo no chão como um fruto apodrecido muito antes do tempo...
Ninguém viu nada, ninguém ouviu um só gemido que fosse. Matei-o pela calada do meu silêncio, antes que o parisse num impulso e o abandonasse à sua sorte e à luz do dia, numa qualquer valeta pestilenta onde outros o encontrassem e o matassem de desprezo...


Tal como disse, fui de férias e voltei aos mesmos sítios de sempre, com a mesma alegria com que tantas vezes me revisito em pensamentos, através dos passeios que faço pelas memórias que tenho guardadas como tesouros de valor incalculável, de um tempo que me marcou profundamente...


******



Ontem voei no tempo com as asas emprestadas da emoção, quando me abeirei daquele cofre antigo e o abri com a mesma sensação indescritível de uma criança a quem se dá um brinquedo pela primeira vez...
Uma relíquia do passado que mais parecia um filme mudo onde os personagens se movimentavam com naturalidade, representando o seu próprio papel, sem qualquer encenação ou pose.
Cenas imortalizadas pelo olho mágico de uma câmara, objecto caro a que só alguns podiam chegar. E o meu padrinho podia! Por isso andava sempre de câmara em punho, filmando tudo o que lhe parecia digno de registo. Os filhos e os amigos, os passeios em família, a faina da aldeia em dias de acontecimentos importantes, como a malha do milho ou a matança do porco ou até o dia da festa anual em honra da santa padroeira da terra. A alegria das pessoas... os sorrisos... as gargalhadas... as traquinices dos miúdos... coisas tão simples mas que nem ele sabia o quanto um dia lhe haveriam de ser tão queridas, pelo seu valor de estima incalculável.
Embora tivesse consciência de que também eu era sugada para dentro dela junto com os outros miúdos com quem brincava naquela eira, onde a debulhadeira ruidosa não parava de cuspir, ora centeio, ora trigo de um dos lados e palha do outro. A minha mãe e todas as outras mães e avós não tinham descanso correndo de um lado para o outro, acudindo aqui e ali como podiam, que a máquina infernal assim o exigia, numa azáfama sem igual. Foi assim mesmo, que entraram pelo tal olho mágico daquela câmara de filmar adentro, sem se aperceberem. Na altura, nem sequer imaginava que algum dia viesse a ver o que ela guardava naquele momento...
Reconheci-os a todos de imediato, até aqueles que já morreram entretanto... e voltei a ser aquela pequena irrequieta, de vestido aos quadrados e chapéu de pano branco na cabeça, que brincava com os rapazes e gostava de fazer tudo o que eles também faziam. Saltava do muro e corria de novo em direcção ao mesmo pronta a repetir a proeza, sempre um nadinha mais alto.
Era um pedacinho pequenino de uma partícula do passado, suspensa por um fio a uma memória quase apagada, onde só uma leve lembrança ainda permanecia, por ser tão frágil quanto a tenra idade daquele fragmento de vida, que o tempo distanciou de mim.
E do nada, quatro décadas depois e sem o esperar, é-me oferecido este tesouro onde me revisitei à distancia de um simples clic...
Um tesouro que vale uma fortuna na escala do sentimento e que irei guardar com ternura para todo o sempre!


Nas próximas semanas, não me encontrarão por aqui.

Vou andar algures por aí.

Talvez até, dê um pulo até ali...






Escuta...
Ouves?

São cascatas

Que se despenham
Pelos teus olhos adentro...


São palavras

Que ninguém inventou ainda

Mas que já existem

Naquele lago secreto
Que escondes
Nas profundezas
Do teu sentir...

Sei-o

Quando te apanho a jeito

E te espreito
Pelo canto do olho
Enquanto me serpenteio
Diante de ti

E te vejo sorrir...



Adivinho-te
A braços com o desejo
Que te desperto
Entre mil ondas
De prazer

Capazes de te estremecer

Na crista de um arrepio...


imagem retirada do site deviantART

... de súbito, num impulso abrupto, arranquei a máscara que tinha presa à carne e deixei que o sangue jorrasse pelo chão. Ali, mesmo ao lado, estava a porta escancarada e pela qual quem ousasse passar, jamais voltaria!
Quis fazer o mesmo ao corpo, mas a cobardia camuflada pelo sorriso que os lábios da máscara ainda ostentava e os murmúrios inaudíveis e imperceptíveis nos ecos das palavras ditas ao longo de um tempo que já não contava e agora se diluía nos salpicos de uma vida, não me deixaram.
Um braço pendia de um corpo inanimado, segurando aquele rosto decapitado que se mantinha inexplicavelmente firme na mão que o segurava, talvez na esperança de que ainda pudesse voltar ao sítio de onde tinha sido arrancada à força.
Mas as poderosas raízes que entretanto se tinham criado precisamente no sítio onde deveriam ter nascido as asas, rasgando a pele virgem e agarrando-se às paredes vazias de um muro empedrado, rompendo as frestas como serpentes que se esgueiram desaparecendo na escuridão e desaguando num ninho viscoso e bafiento, onde, enroladas sobre si mesmas em orgias de acasalamento intermináveis, se reproduzem às dezenas...
Essas raízes, as tais que o impediram de voar, são as mesmas que agora o mantêm ali suspenso e tombado sobre a culpa do acto praticado, num acesso de loucura ou desespero... como se fosse um troféu da morte e a prova viva da inevitabilidade da evidência e da fraqueza da alma humana.
É tão ténue e frágil a linha que prende uma vida, tornando insustentável o peso da leveza que a segura...



além das palavras... sou filha do sol e da lua, fui forjada sob o fogo, por isso só sei ser assim... regresso ao castelo nas nuvens...
levo comigo as tuas doces palavras, e nos meus lábios a tua alma... fico aqui... fico aquém dos meus sonhos muito além das palavras que escrevi... deixo que a alma cuide do meu sonho... e não... desta vez eu não sonhei...


Não são minhas estas palavras
São de uma alma que partiu
Deste mundo dos vivos
Levando consigo os sonhos
Para um castelo só seu
Que acreditava existir
Algures
Além das nuvens...

Estas foram
As últimas palavras suas
Que deixou suspensas
No tempo...

Foi lembrada
E visitada
Meses a fio
Por quem não se apercebeu
Por quem não soube
Da sua partida...

Sim
Partiu sem aviso
Sem despedida...

Mas deixou marcas na alma
De quem com ela se cruzou
Neste oceano de sentimentos
Onde se navegam as palavras...

Algumas
Foram por si
Sopradas ao vento
Em noites e dias
De sofrimento
Tão seu...

Pois sabia que não tardaria
A hora da chegada
Da morte que a levaria!

Ainda hoje por ali permanecem
As derradeiras palavras...

E flutuam...
Como cinzas
Numa campa aberta
Que nem o tempo
Se atreveu
A fechar ainda!



Estão aqui
E há mais aqui

Há dias, ao passar por velhos espaços que antes fervilhavam de vida e que agora encontrei ao abandono, deparei-me com coisas suas e não pude deixar de me emocionar.

Conheci a Dreams (uma jovem de vinte e poucos anos) na blogosfera. E tenho a certeza de que muitos de vós, especialmente os mais antigos nestas andanças, ainda se lembrarão dela também.
Palmilhámos os mesmos trilhos das linhas que nos cruzavam os destinos e nos faziam a felicidade do instante.
Um dia desapareceu...
Soube mais tarde que tinha falecido.

Arrepia-me ver a quantidade de gente que não a esqueceu, regressando de tempos a tempos ao seu cantinho e ali continua a deixar-lhe palavras naquela caixinha de comentários, como se ela alguma vez voltasse para as ler...




Há qualquer coisa de enigmático que se esconde na penumbra das palavras que não diz... que apenas sussurra...
... nos murmúrios imperceptíveis que se lhe escapam por entre os lábios quase cerrados e que só um ouvido encostado e à mercê de um toque atrevido de língua húmida e quente, lhe reconheceria os intentos gulosos...

Atraídos pelo seu fascínio, há quem se perca nas malhas das sensações indescritíveis que se abrem num piscar de olhos sedutores e se despenham por uma fraga de novas emoções, serenando por fim, num terreno desconhecido e ao mesmo tempo tão apetecível... aí, é-se convidado a entrar numa outra realidade onde a fantasia é o passe e a ousadia a peça fundamental num jogo de sedução e quase sempre jogado a dois, cujo objectivo é exactamente o mesmo, ou seja, o prazer da conquista. Este é o ponto fulcral da escolha. Do avanço ou do recuo de um pequeno passo que ditará a vivência ou a recusa de uma experiência nova. Quem escolhe correr o risco e viver essa aventura, afirma sem hesitar -  é viciante, é aliciante e quase obsessivo. Muitas das vezes, jogado até ao limite do irracional... como se não houvesse amanhã. E aí, talvez se torne até, perigoso. Mas será sempre uma lição que ficará para o resto da vida, quanto mais não seja, pelos momentos que se permitiram na cumplicidade da partilha, desbravando os caminhos da tentação e desafiando as margens da fronteira entre o desejo da loucura e a sobriedade da razão.



Há olhares enigmáticos
Que nos penetram até à alma
Desnudando-nos de segredos...

Falam-nos das cores
Dos cheiros
E dos sabores
Dos desejos...

Falam-nos dos risos
E dos choros
Dos sentimentos
E dos voos dos sonhos...

Depois
Vestidos de candura
E embevecidos de serenidade
Talvez cegos p'lo encantamento
Do efémero momento que foi
O da paixão
Ainda vagueiam
P'los recantos do pensamento
Reavivando memórias antigas...

E aí
Completamente perdidos
Da sua própria razão
Por se fecharem à luz
Que lhes encandeou a realidade
Ainda nos falam sem mágoas
De cumplicidades...

Há olhos que nos gritam
Tantos
Tantos silêncios...
Que nos ensurdecem
Por completo!



Cravaram-me uma estaca
Na alma!...

Apoderaram-se do meu tesouro
E deixaram-me prostrada
Num chão
Nojento e pegajoso
Pejado de mentiras esventradas
E de odor pestilento

E são às dezenas os sorrisos...
Cínicos!
Que na pressa da retirada
Lhes caíram do rosto
E se espalharam no meio da podridão

Pobres criaturas sem palavra
Que de tão miseráveis que são
Atraiçoam quem lhes deu o pão
Nos dias mais negros
Da fome apertada

E salvaram quem nada lhes deu
A não ser a ilusão
Daquilo que não passa
De um redondo nada...

Mataram
E fugiram todos
Montados na mula da cobardia

Salvou-se um estranho silêncio
Que paira num ar irrespirável

Morri sozinha
Sem glória alguma
Com a dor da desilusão

Não mais voltarei
A pisar o chão que me viu morrer!...



É negro
O fundo
Da tela
Onde escrevo


O que escrevo?
Coisas simples
Coisas pequenas
Que me vão saindo
Do pensamento


Umas serão amargas
Outras serão doces
Terão o gosto que tiverem
Saberão ao que quiserem...


Escrevo-as como as sinto
Com a singeleza das letras
Que encontro
Ao acaso
Por onde passo
Nas esquinas dos dias

Quando escrevo?
Não tenho horas marcadas
Nem compromissos que me prendam
Tenho momentos...


Pode ser hoje
Pode ser agora
Mais logo
Ou amanhã


Porque escrevo?
Talvez seja pela necessidade
De conjugar os verbos
Que outros
Chamarão de versos
Com ou sem rimas
Pouco importa
Desde que me façam sentido

Negro
É o fundo
Da tela
Onde escrevo
Absorvida no meu pequeno mundo
E embalada pelo sossego
Do meu silêncio...


Antes de mais, gostaria de agradecer à Juvelina Pereira, por ter aceite de imediato o pedido que lhe fiz , de escrever o prefácio deste meu livrinho. Depois, quero agradecer à editora Temas Originais por ter acreditado na minha escrita e por ter apostado em mim , dando-me assim a oportunidade de tornar real algo que até então só existia no virtual. Fizeram um trabalho excelente em termos de edição, pois o livro está lindo.
Quero agradecer também à minha amiga Mel de Carvalho, por ter aceite tão prontamente o convite e o pedido que lhe fiz para estar aqui hoje, sentada nesta mesa e ao meu lado, nesta minha apresentação. É um prazer e uma honra!





E por último, quero agradecer a todos os meus amigos, alguns de infancia, outros ligados pelos mesmos laços da terra que me viu crescer e aos que fui granjeando ao longo da vida, pelas mais variadas razões, alguns são simultaneamente meus colegas de trabalho também.
E depois, aos meus amigos mais recentes , todos eles conhecidos através do admirável mundo da internet e mais precisamente do mundo da poesia e dos sites a que estamos ligados e onde estreitamos os laços da amizade que nos une a todos.
Sem a vossa presença, acreditem que este momento nunca aconteceria!





São impulsos que ganharam asas nas minhas mãos...
O desafio de os arrancar do fundo do meu sentir e a vontade de os libertar , qual pássaro aprisionado numa gaiola anos a fio, a quem se abre a porta e se lhe oferece a liberdade ansiada.
A simplicidade é o manto com que cubro as minhas palavras, despidas que estão de qualquer maquilhagem que as tornasse mais belas, mais atraentes e mais sofisticadas. Gosto delas assim, pois são o reflexo espelhado da minha alma. Quem me conhece sabe que eu sou assim, tão simples como elas.




Acredito que tenho vários "eus" dentro de mim e por isso são muitas as vezes em que me reinvento no que escrevo e nem sempre escrevo o que sinto... observo o que se passa à minha volta, invento personagens e escrevo o que eles me ditam.
Outras vezes, vagueio nos meus pensamentos e mergulho nas recordações que guardo de um outro tempo, trazendo-as à luz do dia sob a forma de uma espécie de poesia...
Sim, são impulsos meus que me saíram a pulso, por acreditar que o conseguiria.
A prova disso mesmo é que hoje eles estão aqui, têm um rosto e um corpo e são os meus In Pulsos.



Quero aqui fazer um agradecimento especial ao Rouxinol de Pomares e a Mel de Carvalho, pelos respectivos destaques que me deram nos seus blogs.
Muito obrigado!



Maria é o meu nome
E sou o fruto prometido
Que brotou da imaginação
De um poeta e prosador
Que habita
Ali para os lados de um site
Onde estende com orgulho
Toda a sua escrita
Urdida
E muito bem ugada
A preceito

Um dia
Levado que foi
Pela aventura
De outras coisas
Que tais
Que não fossem as demais
As banais...
Deu-me vida e corpo

E que corpo!

Que outros logo desejaram
E alguns até salivaram
Com os olhos gulosos
E esbugalhados
Que lhes adivinhei
Sem demora

Daquilo que lhes contava
Nas páginas abertas
Do meu diário
Numa espécie de confessionário
Sem preconceitos
Nem padre

Sei que já me espreitaram
Pelos buracos da rede
Onde só me viram as meias...

Maria é o meu nome
Sou jovem e enfermeira
Especializei-me na cura
De toda e qualquer maleita...

Procuraram-me nas letras
Acariciaram-me em segredo
No calor e no aconchego
Do seu devaneio...

Inventaram-me até um rosto
Um rosto que nunca antes viram
Mas que pode muito bem ser
... este!




Este poema foi inspirado no livro de José Torres, "Diário De Maria Cura".
Lá estarei ao pé do autor e de mais duas mulheres, as três às voltas com um romance de deixar água na boca...
Logo de seguida, será a vez dos meus In Pulsos .

Até lá!



Chamo-me raiva
E estou grávida
De um grito agudo
Que carrego
Dentro de mim

Foi gerado à força
Numa cópula maldita
Num beco escuro
Entre o fio de uma navalha
E uma parede fria

Hei-de pari-lo
Numa noite destas
Quando voltarem os lobos
E uivarem em coro
A uma lua incandescente

Nesse preciso momento
Algo rasgará o silencio
E ouvir-se-à
Um eco estridente
De um grito medonho
Que galgará
Os muros do crepúsculo
Até ao cabo do infinito...

Devastará cidades
E províncias
Ensurdecerá os vivos
Paralisando-lhes o resto dos sentidos
E ressuscitará os mortos
Que se erguerão dos seus túmulos

Nesse dia
Cumprir-se-à a profecia
De todos os demónios
Que na terra habitam
Há milénios
Disfarçados de homens comuns...

E alguém anunciará a boa-nova
Que ditará os destinos
De um mundo decrépito
Corrompido e moribundo
Mesmo à beirinha do colapso

Nesse dia
Ouvir-se-à
De uma voz cavernosa
Uma só frase

Uma frase curta
E seca...
Nasceu a besta!