Afogo as mágoas
Neste copo
Sem fundo
Que me engole
A alma
Até à última gota...

Como águia
Ferida de morte
Desço a pique
Num mergulho
Vertiginoso
Rasando a vida
Por um fio...

Anoiteço e amanheço
Com um só
Pensamento
E são tão fortes
As pancadas deste martelo
Que me dilacera
O cérebro
Que me endoidece!
E bebo...
Bebo para o esquecer

A minha companhia
É a mesma de sempre
O ópio que me domina
E... Eu mesmo!
Envolto em brumas
Que me turvam os olhos
Empardecendo-me o caminho
De todos os dias

E tudo o que quero
É afinal tão simples
Esquecer...
Esquecer tudo
Tudo!

Esquecer até
... que existo!...


Chamo-me Mariana e tenho oito anos de idade. Nasci a vinte e nove de Fevereiro de um ano qualquer que se perdeu do calendário...
Sou filha de um homem que nunca vi. A minha mãe é prostituta por necessidade, condição imposta pela vida de droga que escolheu e não conheci nenhum outro familiar. Nem avó, nem avô, nem tios ou primos.
Não sei a que cheira o mar, não sei a cor que tem o céu, nem sequer conheço o som de um comboio a apitar...
A minha curta vida foi passada num hospital, para onde me levaram pouco depois de me terem encontrado abandonada numa valeta de uma estrada quase deserta, por onde, por sorte, alguém passou naquela noite de chuva e me ouviu chorar.
Nasci subnutrida, cega, surda e nunca cheguei a andar...
Tenho oito anos de idade, mas não passei de um mês de vida. Morri algum tempo depois, por não me conseguirem salvar.
Neste jardim existem muitas flores, muitas campas bonitas, onde estão enterradas pessoas importantes, com fotografias coladas nas pedras mármore ou de granito e dizeres bonitos escritos a letras douradas. A minha não tem nada disso, apenas uma cruz de madeira assinala o sítio onde me encontro. E as árvores... as árvores têm um cheiro esquisito, um cheiro a cemitério.
O meu nome é Mariana, tenho oito anos e este é o meu túmulo!
Nunca ninguém me veio trazer flores...


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Texto triste que escrevi para o livro - "Trago-te um sonho nas mãos". Porque a vida não é feita só de alegrias nem de coisas bonitas...
Esta antologia conta com a colaboração de diversos autores do site Luso Poemas, que se uniram para dar o seu contributo a favor da instituição:ASAS
(Associação de solidariedade e acção Social) em Sto. Tirso.O lançamento será feito no dia 5 de Dezembro de 2009, pelas 15.30h, no Mosteiro de Tibães em Braga, nas antigas cavalariças do Mosteiro. Só me resta dizer, que este evento está integrado no VI Encontro do Luso-Poemas.

Se também quiser ajudar e se por acaso estiver por perto, não hesite e apareça também!


Olho
Nos olhos rugosos

De pessoas apáticas

Ou sorumbáticas

Que buscam

Obliterando

O presente
E o futuro,
Solução
Para um mundo

Supra decadente(!)

Encontro,
Casualmente,

A controversão
Nos olhos de alguém,

Que,

Sobranceiro a ele

Extravasa

Toda a sua alegria(?)

Liberdade,

Euforia...

Forever?


(23-VII-83 _ Florentino)


Poema de um amigo meu de longa data, que me marcou bastante na minha adolescência, talvez pelas suas ideias religiosas já bastante vincadas na altura e que me levaram a admirar a sua fé incondicional e vontade de contagiar quem consigo privasse mais de perto. Por circunstancias da vida, perdi-lhe o rasto e há já quase trinta anos que nada sabia dele... há uns dias atrás e por um acaso, reencontrei-o aqui. Movida pela curiosidade, pesquisei pelo seu nome na net e o que encontrei foi isto... Florentino Lavrador, uma pessoa humilde como o era o berço onde nasceu. Oriundo de uma aldeia da minha freguesia(Dreia). Um homem de uma fé extrema, que o levou a viajar até ao outro lado do mundo, numa missão tão sua, a de espalhar a sua enorme bondade e convicção religiosa, junto dos povos mais desfavorecidos deste nosso planeta.



Junto-lhe uma imagem de si próprio enquanto jovem e que guardei religiosamente ao pé de todas as outras que me ofereceu, a maior parte de flores e paisagens nocturnas da sua bela cidade que o acolhia na época.

Era um poeta, um missionário e um amigo(dos primeiros amigos a sério que tive).
Faleceu há poucos dias...
Esta é a minha singela homenagem em sua memória!


Levo aos teus cabelos, os meus dedos ainda molhados das águas doces do meu rio, de quem me vim despedir neste fim de tarde, tão longe de te encontrar... Afago-os com a mesma ternura com que o meu olhar cansado se deita com o teu, sob o manto da magia de um instante, na quietude deste nosso encantado e silencioso entardecer...
Nesta margem de onde te avisto com os olhos da lembrança, ergui um altar imaginário, onde venho sempre que a saudade de ti me assalta sem avisar.
Neste rio te conheci, te amei e te perdi... mas é neste rio também, que te reencontrarei sempre que a minha vontade o desejar.



Hoje não me apetecem as palavras. Por isso, quedo-me no silêncio que a imagem sugere e no som que se ouve em fundo. Há dias em que não precisamos de escrever nada, basta sentir o instante...