Trazia uma vida inteira a pingar-lhe dos olhos. Na memória, agruras e pobrezas (tantas) que as pedras não dizem. Embrulhada na capucha negra, enxotava o frio que lhe abocanhava os ossos. Mirava ao longe a terra de onde nunca saiu, cheia de estórias de misérias de tempos idos que ninguém ouviu... Agora, que importância terá isso, se a beleza é tudo o que mais importa! Imagens a correr o mundo, a trazer autocarros cheios de gente com máquinas fotográficas e que se debulha em deslumbramentos, como se não houvesse existido passado algum e aquilo tudo já tivesse nascido assim.


E quando urge a vontade pela busca e esta se torna incessante, do que nem sabemos muito bem o quê, que nos leva a viajar para dentro de nós mesmos, procurando em cada rua, em cada esquina das memórias, nos resquícios da existência queimada pelo tempo, evocando lugares e pessoas que nos acordam sentimentos adormecidos e nos permitem reviver instantes impossíveis de descrever porque só nós os vemos como vemos e como os queremos ver(os outros não os enxergam e mesmo que enxergassem não quereriam saber), tornamo-nos felizes sem sabermos que era esse afinal, o grande motivo da nossa alienada busca.



Poesia
são pássaros poisados
em pautas suspensas
sob o entardecer
num chilreio de notas
uníssonas
enquanto contemplam
o horizonte
do lado contrário ao nosso ver...


Cada vez me sinto mais incapaz de fazer frente ao inferno em que nos transformaram a vida e nos reduziram a números. É o dinheiro a sumir-se mais depressa visto já não chegar para tudo porque bem menos do que antes e as coisas mais caras. É o trabalho a aumentar porque mentes brilhantes decidiram que havia que levantar o País do lodaçal e que para isso se tinha de trabalhar quarenta horas por semana e ganhar o mesmo. E tudo isto de cara alegre e ao lado de outros que têm contratos do mesmo número de horas só que remunerados de acordo e ainda de outros para quem não houve alterações do número de horas, continuando a fazer apenas trinta e cinco porque assim o determina o contrato que assinaram. De modo que, ainda ontem me(nos) calharam doze horas com um mísero intervalinho para engolir o almoço a correr porque daí a nada a atravancada e desconfortável sala minúscula, a fervilhar de outros que também passaram a ter de levar a lancheira. E ainda me (nos) faltam mais cinco destes até ao fim do mês. É que, ao contrário do que muitos pensam, não se trata de uma simples hora a mais por dia para todos os funcionários públicos(e nalgumas câmaras nem se aplicou a lei, imagine-se! O que é que lhes dá o direito de serem diferentes dos outros?), alguns terão de fazer dias inteiros(doze horas) e não é sentados numa cadeira... E depois, no regresso a casa (já de rastos porque dos vinte anos, já só as saudades que nos deixaram) ainda o frete dos transportes que demoram e outros até que nem vêm. Pelo meio, coisas que passam despercebidas mas que outros não fizeram ou porque se distraíram ou porque lhes faltou o apetite e já nem sequer existe respeito algum nem por colegas nem pelo que quer que seja (ninguém com autoridade a ralar-se em verificar). E depois, ainda há quem queira mandar sem motivo nem tampouco autoridade, ou para colmatar as suas próprias falhas ou simplesmente só porque lhes apetece. E já nem vou falar na pressão a que se está sujeito porque isso é outra conversa e agora não temos tempo. E há ainda a questão dos três dias a menos de férias porque não sei quê e deixou de ter importância se se é assíduo ou não, se se falta ou não. Incentivos ou reconhecimentos... que é isso?! Mete-se tudo no mesmo saco e ponto final.
No super-mercado, se quisermos trazer as coisas(convém que sejam poucas) porque nem o dinheiro, nem a força para arrastar o sacalhão de ráfia até casa, que se tem de ir mudando de mão para mão por via de não deslocar o ombro. A outra solução é ter de desembolsar mais um dinheirão pelos sacos que os governantes decretaram, uma espécie de roubo opcional.
Já em casa, é os gatos que se me enrolam nas pernas a reclamarem atenção porque sozinhos tantas horas, mais o jantar que não está feito, a roupa que não se estendeu nem a da corda se apanhou, na casa de banho o areão a reclamar do cheiro, o meu corpo a gritar e na televisão a dizerem coisas dos ladrões engravatados que, perante a nossa incredulidade, não sabiam de nada, de outros que não se lembravam mas que ainda assim querem continuar a mandar e a desmandar, por via de virem a deliberar mais coisas de modo a tornarem este inferno ainda mais infernal. Outros da mesma raça, continuam sem qualquer tipo de punição como se fosse a coisa mais normal do mundo enquanto se penhoram casas e bens alimentícios aos mais desfavorecidos.... Em suma, uma falta de vergonha e de respeito por tudo e por todos!
Ao que parece, é o castigo por ter(mos) andado a viver acima das possibilidades!...


Serena é a derrota dos ingénuos, ainda que largados ao abandono da sorte, sob o denso manto da noite. Uivos de lobos esfaimados ecoam do breu das montanhas anunciando o início do banquete. E as portas do céu que permanecem cerradas... Ninguém para os salvar!
Indiferentes aos gritos das almas inocentes, ferozes, impacientes, as bestas  avançam implacáveis a coberto da escuridão!
Existem tantos mistérios e terrores escondidos nas pregas dos nossos sonhos, capazes de nos sobressaltarem se nos apanham distraídos... na profundidade do sono.

E se calhar já nem sonho, nem sono, nem terrores ou mistérios. Se calhar já nem nós, a ocupar a cadeira que dormita, a encher o vazio das horas...





Algures, entre a alvorada e o ocaso de todas as vidas, existe um misterioso jardim abandonado cujo portão enferrujado não carece de chave, visto que se encontra meio aberto e meio fechado. Em todo o caso, a chave mesmo ao lado, pendurada no prego dobrado. Lá dentro, a teimosia das roseiras bravas a travar silenciosas batalhas com o desgrenhado das ervas para espanto dos picos das silvas esfomeadas a tomarem conta das lápides resignadas... E eu, do lado de fora espreito enquanto decido, se entro ou se fico.
Talvez mais tarde - por ora estou só de passagem - ainda é tempo de saborear a viagem nesta estranha carruagem de um louco e atormentado comboio sem destino.



Não existem mundos
Perfeitos
Nem sonhos
Impossíveis


O que existem
São escolhas
Que nos traçam
Caminhos
Por onde guiamos
A vida


Que
Inevitavelmente
Nos levará
Ao encontro
Do nosso destino...



Morremos em cada palavra
não dita
em cada gesto contido
em que o toque involuntário
nos retrai.
Morremos ainda, ao dobrar aquela esquina
onde, por acidente, nos cruzamos
e logo nos apressamos
a fingir-mo-nos
de estranhos.

E os olhos procuram a fuga que urge,
no chão
meio palmo à frente dos sapatos
baços,
no desleixo da graxa.

E seguimos caminho
segurando com firmeza
a cabeça,
não fosse uma fraqueza...

Passam as semanas
passam os meses
os anos
E é sempre mudos que nos achamos
e desachamos
nas voltas imprevistas do tempo

É a besta do orgulho
ditador e mesquinho
a quem nos vendemos por impulso
a impor-nos agora
a sua absoluta razão!

Mas não será esta razão
uma covarde mentira?

Há muito que nos deixámos de ser
preferindo não estar
para não ver
para não sentir
E fecha-mo-nos no nosso mundo
de ostra
protegendo-nos do desprezo
das pérolas...



Ofereci-te a minha pele
Nua
Qual virgem folha
Que perturba...

Oh, tentação
Lasciva
Que compele
Que inebria
E desafia
Desassossegada(mente)!

Promessa fecunda
Que florescerá
Poema
De odor doce
E indelével...

A foto é da "Fábrica de Escrita"



Um dia, ainda hei-de escrever
Um poema
Perfeito

Nem que para isso
Me dispa
De mim mesma
E me entregue nua
Sem preconceito
Ao ríspido aparo da pena...

Bem sei, que
Serão de sangue as letras
Dolorosas feridas
Que me rasgarão

Penosas cicatrizes
Feitas
Do imperfeito poema...

Marcas inequívocas
Que invocarão
A busca miserável
Pela perfeição!

Contudo
Será sempre medíocre
O que se pensa, perfeito
Por defeito...