Não existem mundos
Perfeitos
Nem sonhos
Impossíveis


O que existem
São escolhas
Que nos traçam
Caminhos
Por onde guiamos
A vida


Que
Inevitavelmente
Nos levará
Ao encontro
Do nosso destino...



Morremos em cada palavra
não dita
em cada gesto contido
em que o toque involuntário
nos retrai.
Morremos ainda, ao dobrar aquela esquina
onde, por acidente, nos cruzamos
e logo nos apressamos
a fingir-mo-nos
de estranhos.

E os olhos procuram a fuga que urge,
no chão
meio palmo à frente dos sapatos
baços,
no desleixo da graxa.

E seguimos caminho
segurando com firmeza
a cabeça,
não fosse uma fraqueza...

Passam as semanas
passam os meses
os anos
E é sempre mudos que nos achamos
e desachamos
nas voltas imprevistas do tempo

É a besta do orgulho
ditador e mesquinho
a quem nos vendemos por impulso
a impor-nos agora
a sua absoluta razão!

Mas não será esta razão
uma covarde mentira?

Há muito que nos deixámos de ser
preferindo não estar
para não ver
para não sentir
E fecha-mo-nos no nosso mundo
de ostra
protegendo-nos do desprezo
das pérolas...



Ofereci-te a minha pele
Nua
Qual virgem folha
Que perturba...

Oh, tentação
Lasciva
Que compele
Que inebria
E desafia
Desassossegada(mente)!

Promessa fecunda
Que florescerá
Poema
De odor doce
E indelével...

A foto é da "Fábrica de Escrita"



Um dia, ainda hei-de escrever
Um poema
Perfeito

Nem que para isso
Me dispa
De mim mesma
E me entregue nua
Sem preconceito
Ao ríspido aparo da pena...

Bem sei, que
Serão de sangue as letras
Dolorosas feridas
Que me rasgarão

Penosas cicatrizes
Feitas
Do imperfeito poema...

Marcas inequívocas
Que invocarão
A busca miserável
Pela perfeição!

Contudo
Será sempre medíocre
O que se pensa, perfeito
Por defeito...


Em menos de nada
  Cedi ao impulso
                                

                            Rasguei
                              O tempo
                                 Nulo

                              
                                          Desci a escada
                                                   E voltei
                                                        Em silêncio
                                                                                  Ao início
                                                                                               De tudo...



Tenho fome de sorrisos de sol e da preguiça do vento... da embriagante lânguidez do entardecer, espraiando-se sob os campos de trigo doirado, quase maduro. Dos dias cálidos a prometerem sinfonias de grilos e de rãs noites adentro. Tenho saudades do bailado ondulante das borboletas e do verde fluorscente dos luzicus na parede do meu quintal. Dos lírios que enfeitavam o jardim abandonado, em frente à casa alta de xisto da rua da minha avó e em cujo telhado de lajes quentes, me sentava junto dela e me demorava a ouvir as suas histórias de encantar, que me contava por entre costuras de dedal e agulhas difíceis de enfiar.
Lembro-me das dálias rubras sem canteiro, nascidas da terra, junto ao corrimão das videiras. Das tangerinas que salpicavam o chão em volta da tangerineira e das outras que colhíamos com a escada da azeitona. Dos abrunhos de frança a pingarem de mel... das abelhas gulosas e da bilha de barro onde se guardava a água fresca que nos matava a sede quando longe das nascentes.
Dos enfeites e das festas, da música e do largo cheio de gente.


Sou o que sou
Sem chegar a saber
Quem realmente sou

Sinto-me
No intervalo
Entre aquilo que fui
E o que nunca cheguei
A ser

E o que fui afinal?
Interrogo-me agora
Quando me busco
E não me acho
No álbum vazio
Da estante...

Se ontem me morri
Sem saber
Quando me abandonei
E me esqueci
De viver

Se ontem não fui
E hoje não sei

Talvez amanhã
Ainda venha a tempo
De vir a ser
Um qualquer
Alguém...!



Existem lugares onde o silêncio é a melhor das companhias.
O dizer da contemplação luxuriante do instante partilhado, é o agasalho perfeito que embrulha as almas felizes, satisfeitas por alcançarem o indizível das coisas...


Tenho um rio nos meus olhos, que corre sempre sereno a caminho da foz dos meus pensamentos...
Os meus passos imaginários, aventuraram-se no infinito do horizonte, e, sem me dar conta, trouxeram-me a estas margens que gravei na lembrança de um fim de tarde de Outono que nunca existiu...
Sentada neste chão sem terra, desenho no meu caderno de folhas brancas, um esboço de um poema sem letras, que me ofereceste sem te importares se o perceberia ou não... onde a silhueta de um moliçeiro se ergue no leito quieto do meu rio. Este mesmo rio onde um dia navegou a minha imaginação, sempre que te avistava através das cortinas de cambraia cor de violeta, que esvoaçavam ao sabor da brisa das tuas palavras quentes, que me chegavam sob a forma de cartas sem remetente, enviadas de um tempo que se perdia na lonjura dos dias sem fim.
Hoje regressaste desse tempo, mas já não és o mesmo. A tua imagem envelheceu, os teus cabelos já tão ralos e fracos embranqueceram e embora os teus olhos escuros e cavados me olhem fixamente, não me vêem... há um vazio que preenche este espaço enorme cheio de promessas e desejos do que nunca vivemos. E o tempo, sempre o mesmo malvado tempo!... que um dia nos aproximou é o mesmo que nos afasta, neste constante e ininterrupto martelar de tic tac's sem volta.


No tempo
Das desfolhadas
Era vê-los felizes
Raparigas e rapazes
Numa roda valente
Em torno das espigas

Alegres
Eram as cantigas
Que animavam a roda
Dos ansiosos corações
Pela achada do milho rei

Entre abraços
E beijinhos
Permitido seria, enfim
O tal
Dado de fugida
Na face da namorada
Que, ruborizada
Toda ela se consolava...

Concertinas
Apareciam
No fim da desfolhada
Para animar o bailarico
Até de madrugada!