Assomou-se-me ao vidro da janela, madrugada adentro. Trazia no rosto o pavor de uma criança assustada e nas mãos o sangue ainda quente a escorrer-lhe em bica da ponta dos dedos. No chão, um carreiro vermelho de pequenas pingas anunciava em silêncio o rasto de um insólito crime que acabara de acontecer, ali mesmo, no outro lado da esquina dobrada. Um crime, cuja lucidez do autor o obrigara antes a se implorar aos pés de si mesmo! E em cada palavra que escrevia, era como se uma espada o trespassasse até ao fundo de si, definhando no verbo, morrendo-se...



É preciso escutar
O silêncio
Saber ouvir
O que ele
Nos diz
No sussurro
De um leve
Sopro
D'alma...

Antes que o eco
Ensurdecedor
Do seu grito
Nos acabe
Por emudecer...


É engraçado verificar o conforto que existe na concavidade do silêncio. Quando as palavras se escusam por já estarem demasiado gastas, sem a graça de outros tempos. De modo que, existe uma espécie de entendimento respeitosamente mudo, livre de vocábulos inúteis que só serviriam para confundir e atrapalhar o que se deseja conservar íntegro, o que só se consegue na inevitabilidade do silêncio. Portanto, evitando olhares desnecessários, gestos ou quaisquer outros descuidos que pusessem em risco um pacto desta importância.
E pensar que para muitos as palavras são as peças fundamentais, os dentes que se encaixam e fazem mover as rodinhas de uma engrenagem tão complexa da vida, a que chamam relacionamentos... um dia lá chegarão. Ou então, não!


Desci do autocarro e caminhei sem grandes pressas. Tinha tempo. De modo que lá fui devagar a apreciar o começo de dia farrusco, mas que, por aquela hora, já se adivinhava quente. Ao meu redor, mais passos ritmados se encaminhavam ao mesmo destino. Uns mais apressados do que outros, mas todos no mesmo sentido. Ao fundo, avistei os mesmos gémeos que já não via há tempos, lado a lado, como sempre, caminhavam em silêncio enquanto me cruzavam o caminho - os irmãos Dupont, como carinhosamente (?) são conhecidos entre os colegas. Instintivamente, parei por instantes e fiquei a apreciá-los, cada vez mais longe, até desaparecerem do meu horizonte. As mesmas batas brancas, iguaizinhas, denunciavam a profissão que ambos escolheram: médicos neurologistas. Vinte e cinco anos separavam o tempo daquele instante, desde a primeira vez que os tinha visto e, no entanto, apesar da falta de cabelo e da cor esbranquiçada do restante, o mesmo aspecto…tudo se encaixava direitinho no cenário, como se o tempo nunca houvesse passado. Desde esse dia, de vez em quando acontecia voltar a encontrá-los, sempre às mesmas horas, pelo mesmo caminho, cruzando-me com os seus destinos…
Desconheço se construíram ou não carreiras familiares, contudo, ali e enquanto caminhavam, eram como se fossem um só. Mas gosto de os imaginar a partilhar o mesmo automóvel que conduzem à vez, a partilharem a mesma casa, a dormirem no mesmo quarto em camas lado a lado, a lerem os mesmos jornais e revistas científicas que vão trocando e sentados em poltronas, também elas, lado a lado. Provavelmente a verem o mesmo programa de televisão, porque invariavelmente será do agrado de ambos. Sentados à mesa de jantar, frente a frente (como se se mirassem a um espelho e cada um reflectisse nos olhos do outro a imagem de si mesmo), enquanto vão mastigando silêncios vagarosos. A atenderem e a baralharem os seus doentes em gabinetes que por sua vez também se encontram lado a lado ( - Desculpe Doutor, mas ía jurar que o tinha visto entrar ali para aquela porta do lado)…
Após dedilhar nas teclas do relógio de ponto o meu número mecanográfico, de colocar o indicador no postigo incorporado e de a máquina me devolver o meu nome como prova de que leu correctamente as minhas impressões digitais, olhei para as horas e reparei que, se os gémeos se tivessem atrasado por qualquer motivo hoje, o mais certo seria chegar atrasada ao trabalho sem necessidade nenhuma. Mas não; ao invés de ponteiros que se perseguem em compassos desacertados de um tempo que os finta a cada segundo, os gémeos são sempre meticulosamente certinhos. O relógio marcava 07.58h.


Nota: Este texto encontra-se sob votação para um concurso. Se gostou, tiver conta no facebook e queira votar nele, pode fazê-lo aqui:
http://www.conteconnosco.com/trabalho-detalhe2.php?id=11

Muito obrigado!

 
O preto da roupa que lhe compunha os ossos era o mesmo que lhe ofuscava a luz radiosa que provinha do profundo do céu azul dos seus olhos. A viuvez condenou-a ao negro perpétuo, onde fora ré sem direito à negação de uma culpa que não era sua. De vez em quando, metia a mão ao bolso do avental e um quadradinho branco a enxugar-lhe as pálpebras rasas de água que se diluia em esperanças cristalinas de ontens...
Apesar do sal que se despenhava das cataratas, nenhum soluço. Ás vezes, à tardinha, ouvia-a cantarolar a saudade das cantigas, à sua companheira muda a quem chamavam solidão, que a escutava com a maior das atenções.
Anoitecia janeiros e debulhava agostos. Por vezes, quando fecho os olhos, ainda a encontro curvada sobre a dobra do lençol, a remendar o que já havia sido remendado vezes sem conta, até que as tremuras...



Teria pouco mais de vinte anos quando a vi entrar por aquela porta, carregando todas as certezas que conseguira extrair dos livros em que estudara. Vinha de mão dada com a irreverência da sua juventude, mostrando-se airosa em cada passo seguro que dava. No olhar, trazia ainda todos os sonhos do mundo, que fazia questão de ordenar nas linhas daquele caderninho de capas rosa, que, de quando em vez, sacava da sacola e os ia espreitar. Embevecida no seu mundo, escrevia, riscava, voltava a escrever de novo. E entre toques de telemóvel e outras tantas chamadas perdidas, lá ia compondo como quem compunha poemas, aqueles que deveriam ser os seus projectos de vida de então. Férias para aqui e para ali, viagens a perder de vista, não fosse o mundo fugir com toda a sua fortuna!
"Ah! Então e o Tomé? Não esquecer de levar o Tomé!" --- Dizia para si mesma de cada vez que fazia a mala. O Tomé era um sortudo boneco de peluche, com honras de acompanhante privado, imprescindível e insubstituível companheiro de aventuras, com quem sempre viajava, mundo fora.
Namoros que não foram, desejos flamejantes no olhar lascivo dos homens que em seu redor saltitavam como gafanhotos, amores e desamores de uma noite apenas e outros desaires que se impunham pela urgência do momento. E desilusões, tantas... sempre as malvadas das desilusões que nos trespassam a alma, ao virar de qualquer esquina da vida!
Mas quê? Quase sem dar por isso, foi deixando que o manhoso do tempo lhe assaltasse e vandalizasse os projectos, entretida que andava com as promessas de uma felicidade, que, no fim de contas, não passava de um faz de conta.
Hoje, já não a vejo escrever no caderno de capas rosa, nem tampouco lhe encontro nos olhos os sonhos que antes lhe escorriam até ao sorriso.
Mas amanhã, é sempre um novo dia. A esperança renasce como fénix renasceu das cinzas!

... restos de ontem, são fragmentos de um tempo que se foi. São partículas inquietas, que pairam no vácuo do pensamento (qual baú empoeirado e bafiento) e nos devolvem momentos de inolvidáveis sensações. Algures, num ontem já distante, foram razões importantes que a memória cuidou, que guardou como quem guarda uma fortuna pela eternidade, ainda que de uma eternidade efémera se trate, como o é a nossa vida. No dia em que o corpo se prostrar e a alma se quedar, a eternidade sucumbirá também, levando consigo toda aquela fortuna. Cada vida tem uma, todas diferentes, todas iguais, consoante o valor que cada um lhe dá. Aqui nada se doa, nada se herda, vive-se e morre-se... só!

Já me dói o silêncio, mas...
Não encontro as palavras que me faltam para escrever o que me jorra no pensamento. A inércia tomou conta do meu corpo, do meu ser, talvez camuflando a mediocridade que sempre me acompanhou mas que eu teimava em não querer ver...
Permanecerei no vale sombrio da morte, onde as sombras se confundem com o silencioso vagar arrastado das almas enganadas, que se não sabem mortas ainda. Das suas gargantas putrefactas, só o gesto do grito mudo, se solta num espasmo sem eco.
Um dia talvez renasça das cinzas e volte a dar vida ao que agora me mata.


Cresci no campo mas orgulhava-me de ter nascido em Lisboa, na maternidade Alfredo da Costa, que me parecia ser num sítio tão longínquo quanto a remota possibilidade de alguém me meter num automóvel e me levar num passeio a conhecer Lisboa, que tantas vezes sonhava em pormenores de ingenuidades infantis. Mas ordenados. Ordenados por sequências de imagens que se geravam e arrumavam na minha jovem mente. Como seria a cidade onde tinha nascido? Era a pergunta que se impunha a toda a hora em que decidia abandonar-me em pensamentos sonhadores. Esta pergunta incomodava-me muito. Em parte, por não conhecer nem um pedacinho só que fosse, mas a verdade é que eu era demasiado pequena quando pegaram em mim e me trouxeram debaixo do braço, sem a minha autorização. Se me tivessem perguntado se queria ir embora de Lisboa para a província onde uma casa a cair de velha e, ainda assim, toda ela cheia de velhos também, nos aguardavam, de certeza que teria dito logo que não!. Mas dois meses não é quase tempo nenhum; não numa vida humana a contar do princípio, ainda é demasiado cedo para me lembrar do que quer que fosse quanto mais ter voto na matéria. Acho que por isso, acalentava em segredo esse meu desejo de ir passear até à minha terra natal; tinha todo o direito.

E todos os anos os via chegar e partir; aos que de lá vinham para as férias grandes que passavam com os avós, mas a mim ninguém me levava nem trazia... para grande desgosto meu, constactava sempre que era ali a minha terra. Era ali que eu pertencia.

Até que um belo dia, deveria ter uns treze anos, com o pretexto de consultar um especialista da vista no Hospital dos Capuchos, lá vim eu com o meu pai, toda contente, até à capital na furgoneta do Sr. Américo Pêras, que nos levou a uma rua estreitinha ali para os lados da costa do castelo, onde morava uma tia do meu pai, irmã da minha avó. A casa, minúscula, foi grande demais para me aprisionar e quase asfixiar de ansiedade... não via a hora de serem horas de sair para a tal consulta e poder pisar o chão da terra que era a minha. Ficámos ali mesmo na divisão que chamavam de sala. Havia ainda uma divisão com uma pia de despejos atrás de uma cortina presa por um esticador, onde o único objecto que lhe dava a dignidade de cozinha era um pequeno fogão a gaz de dois bicos onde um frango borbulhava dentro de uma panela. Ao lado, um quadradinho do tamanho de uma caixa de fósforos onde se vislumbrava uma cama que o enchia por completo. O quarto, talvez a única divisão digna do nome que tinha, estava alugado a uma senhora de bem que era também quem pagava a renda da casa toda ao senhorio do prédio.

Dormi com o meu pai num cobertor dobrado ao meio, mais duro que um colchão de chumbo. A azáfama dos automóveis na rua até altas horas da madrugada, contrastava com o silêncio a que estava habituada e não me deixavam chegar o sono, de modo que, a noite se alongou como nunca se tinha alongado mais nenhuma noite em toda a minha vida até ali!...


 
No avesso de mim
Existe um ente desesperado
Um ser esfaimado de vida
Sedento de novas sensações
A morder-me o pensamento

Escuto-lhe os passos
A galgarem as paredes
Da insatisfação
Do meu inconsciente

A mortificarem-me a vontade
De arriscar
Em nome de uma razão
Que não se compreende...

Sinto-lhe o respirar
O ofegar quente
Este martelar constante
Que me arrepia
Que me estrafega
Os ouvidos
Que me ensurdece...
Que me enlouquece...

E o pior
É que não tenho como calar
Este malvado silêncio!