Desconheço se construíram ou não carreiras familiares, contudo, ali e enquanto caminhavam, eram como se fossem um só. Mas gosto de os imaginar a partilhar o mesmo automóvel que conduzem à vez, a partilharem a mesma casa, a dormirem no mesmo quarto em camas lado a lado, a lerem os mesmos jornais e revistas científicas que vão trocando e sentados em poltronas, também elas, lado a lado. Provavelmente a verem o mesmo programa de televisão, porque invariavelmente será do agrado de ambos. Sentados à mesa de jantar, frente a frente (como se se mirassem a um espelho e cada um reflectisse nos olhos do outro a imagem de si mesmo), enquanto vão mastigando silêncios vagarosos. A atenderem e a baralharem os seus doentes em gabinetes que por sua vez também se encontram lado a lado ( - Desculpe Doutor, mas ía jurar que o tinha visto entrar ali para aquela porta do lado)…
Após dedilhar nas teclas do relógio de ponto o meu número mecanográfico, de colocar o indicador no postigo incorporado e de a máquina me devolver o meu nome como prova de que leu correctamente as minhas impressões digitais, olhei para as horas e reparei que, se os gémeos se tivessem atrasado por qualquer motivo hoje, o mais certo seria chegar atrasada ao trabalho sem necessidade nenhuma. Mas não; ao invés de ponteiros que se perseguem em compassos desacertados de um tempo que os finta a cada segundo, os gémeos são sempre meticulosamente certinhos. O relógio marcava 07.58h.
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