Quatro paredes e um tecto, é tudo o que me resta do mundo...
Sinto fome da vida, que, indiferente ao meu sentir, fervilha no lado de fora da minha janela. E eu, do lado de dentro, assisto impotente ao incessante ribombar dos tambores que vão passando, tornando inquietante a quietude dos dias quase vazios. E vou contando as horas entre a madrugada e o anoitecer, especada, hipnotizada em frente da minha janela, fingindo que vivo enquanto me morro em cada instante de vida, suspensa por um fio de coisa nenhuma.
Amanhã, voltarei a acordar com a sensação de que algo me escapa para lá da janela, cuja cadeira em frente, me aguarda serena e permissiva. Sento-me e recomeço tudo de novo, exactamente do mesmo ponto de partida em que o deixei, que avança e retrocede, dia atrás de dia, sem sair do sitio onde me encontro. Ludibriada pela ilusão de que abraço o mundo e o mundo me abraça a mim, ainda que presa no vácuo do tempo que me sufoca e ao mesmo tempo, me foge...


Algures, num qualquer dia assinalado numa folha de calendário antigo e perdido num canto escuro de uma casa ao abandono, mas onde perduram as memórias de um tempo que já foi cheio!...
Um homem caminha com uma pequena pela mão. Foram por um atalho, pois que a camioneta não passava da Benfeita e até lá ainda era uma boa meia hora a palmilhar o carreiro. Além disso, o bilhete também custava dinheiro, daquele que pouco havia.
A poeira a entrar-lhes pelos sapatos e a tingir-lhes de castanho as meias brancas de sair. Mas isso era o menos. O pior eram os pés a queixarem-se dos tornozelos e os tornozelos a finjirem que não era nada com eles...
Já havia amanhecido entretanto, mas ainda faltam uns bons pares de km até à vila. É preciso apressar o passo, pois o especialista de Coimbra não costuma esperar por ninguém.
_ Pai, ainda falta muito? - Pergunta a pequena já cansada.
_ Não. Não vês que já andamos a maior parte? Daqui até lá é um salto! - Responde-lhe o pai, tentando a todo o custo, apaziguar-lhe o desânimo.
E lá seguiam os dois estrada fora. Agora já no asfalto, mas ainda assim, muito longe do destino que ali os tinha levado.



O caminho é em frente! Dizem-me as vozes que me habitam a mente. E eu tento obedecer-lhes. Contudo, não me consigo mover mais do que uns escassos centímetros, para onde vou arrastando a custo, este corpo morto.

Esta que aqui vedes, já não é a mesma que conhecestes - é agora uma sombra que se agita num esbracejar constante, mantendo a cabeça à tona, como quem, num último fôlego de vida, dá tudo por tudo para se não deixar afogar, apelando até, a uma fé que não tem. 
E luta! Luta com todas as suas débeis forças, naquele chão lamacento onde se deixou cair, qual mosca insignificante, presa no grude pegajoso de uma inesperada teia, onde, ainda que sem resignação, lá vai esperando o abraço sufocante da morte que a espreita cobarde e silenciosamente...





Não pertenço aqui
Não sou da terra
Nem do mar
Viajo p'lo infinito...

Sou o âmbar antigo
Incrustado
Na resina sem idade
O elixir da vida
Para sempre
Perdido

... e da alquimia
O segredo
Ainda por desvendar...
Sou o almocreve
Do tempo
Um mago errante
Que busca
P'la encantada

Mágica planície
Dos seus sonhos...


Que te poderei eu mais
Dizer
[meu amor]
Se a poesia
Que te brotou do algar
Da alma
Se encarregou já
De o fazer?

Silencio-me pois
Para que me possas
Levar
No embalo das tuas
[das nossas]
Palavras...


A perfeição das coisas,
é um lugar silencioso
que nos convida à contemplação.




Existe um lugar secreto no beco das minhas lembranças. Especialmente aquelas que me fizeram sentir uma criança feliz. É para lá que costumo ir de cada vez que os de lá me chamam. E vou! Sem demora nem receio. Conversamos sempre da mesma forma, em silêncio. Invocando as nossas raízes e o nosso sangue, que nos trazem imagens por nós compartilhadas em vida, onde encontramos pedacinhos de histórias nossas. Histórias com sabor agre e doce de saudade. Sentimentos que saboreamos à revelia de quem nos traiu sem aviso, chamando a morte. Apazigua-se o vazio... sempre com a sensação de que nos havemos de encontrar de novo um dia destes, seja naquele ou noutro qualquer lugar do desconhecido.




Já não sei quem sou
De onde venho
Ou
Para onde vou

Sou um vulto
Sem rumo
Vergado
Ao infortúnio
Que me assolou

Um estorvo
Um tropeço
Nesta estrada
Que não tem fim
Nem começo
Por onde me morro
A cada passo
Que dou

Xôoo cão
Maldito sejas!

Que me persegues
E me filas
Silencioso...


E se a vida fosse algo que se pudesse negociar? Encontrarmo-nos frente a frente com a nossa alma na hora derradeira. Podermos, naquele momento, reflectir na importância que a nossa vida teve, ou por outro lado, na sua insignificância... fazer a viagem em sentido contrário, apontando e reconhecendo todos os nossos erros e ter a chance de os eliminar voltando ao início de tudo. Ao ponto zero da nossa existência, recomeçando tudo de novo!
Será isto a essência da reencarnação, em que tanta gente acredita?



Quantas alegrias

de risos e euforias,
quantas tristezas
de lágrimas salgadas...

Chegadas e partidas,
promessas iludidas
esperas desesperadas...

Esperanças renascidas
de vidas desejadas!

E saudades,
saudades...

Quantas correrias
de crianças felizes,
quantas passadas
arrastadas
de vagares penosos
e bengalas...

Tantas supostas histórias
para sempre, sepultadas,
nestas moribundas
paredes caladas...


Foi rei no seu reinado enquanto durou a sua dinastia de amante libertino. Foi amado mas nunca amou. A coberto do seu manto aveludado que o endeusava e encantava as damas que de si se abeiravam, usou e rejeitou a seu belo prazer, satisfazendo os apetites do momento e nada mais do que isso. Foi mestre na sua arte!
Da sedução que o impelia ao crime noite após noite, vítima atrás de vítima, adivinharam-se-lhe inúmeros julgamentos desesperados, mas na realidade nunca chegou a ser apanhado e da pena se haveria de escapar sempre, até ao dia em que um acto insano se apoderou dos seus intentos e perante a perplexidade de todos, resolveu ser ele mesmo a meter o seu próprio pescoço no laço da forca...
Dizem que ainda por lá se encontra o corpo do infeliz. Miseravelmente abandonado no alto do penhasco, mesmo por cima do abismo cuja cobardia o impedira de se atirar condignamente.