Existe um lugar secreto no beco das minhas lembranças. Especialmente aquelas que me fizeram sentir uma criança feliz. É para lá que costumo ir de cada vez que os de lá me chamam. E vou! Sem demora nem receio. Conversamos sempre da mesma forma, em silêncio. Invocando as nossas raízes e o nosso sangue, que nos trazem imagens por nós compartilhadas em vida, onde encontramos pedacinhos de histórias nossas. Histórias com sabor agre e doce de saudade. Sentimentos que saboreamos à revelia de quem nos traiu sem aviso, chamando a morte. Apazigua-se o vazio... sempre com a sensação de que nos havemos de encontrar de novo um dia destes, seja naquele ou noutro qualquer lugar do desconhecido.
E se a vida fosse algo que se pudesse negociar? Encontrarmo-nos frente a frente com a nossa alma na hora derradeira. Podermos, naquele momento, reflectir na importância que a nossa vida teve, ou por outro lado, na sua insignificância... fazer a viagem em sentido contrário, apontando e reconhecendo todos os nossos erros e ter a chance de os eliminar voltando ao início de tudo. Ao ponto zero da nossa existência, recomeçando tudo de novo!
Será isto a essência da reencarnação, em que tanta gente acredita?
Quantas alegrias
de risos e euforias,
quantas tristezas
de lágrimas salgadas...
Chegadas e partidas,
promessas iludidas
esperas desesperadas...
Esperanças renascidas
de vidas desejadas!
E saudades,
saudades...
Quantas correrias
de crianças felizes,
quantas passadas
arrastadas
de vagares penosos
e bengalas...
Tantas supostas histórias
para sempre, sepultadas,
nestas moribundas
paredes caladas...
Foi rei no seu reinado enquanto durou a sua dinastia de amante libertino. Foi amado mas nunca amou. A coberto do seu manto aveludado que o endeusava e encantava as damas que de si se abeiravam, usou e rejeitou a seu belo prazer, satisfazendo os apetites do momento e nada mais do que isso. Foi mestre na sua arte!
Da sedução que o impelia ao crime noite após noite, vítima atrás de vítima, adivinharam-se-lhe inúmeros julgamentos desesperados, mas na realidade nunca chegou a ser apanhado e da pena se haveria de escapar sempre, até ao dia em que um acto insano se apoderou dos seus intentos e perante a perplexidade de todos, resolveu ser ele mesmo a meter o seu próprio pescoço no laço da forca...
Dizem que ainda por lá se encontra o corpo do infeliz. Miseravelmente abandonado no alto do penhasco, mesmo por cima do abismo cuja cobardia o impedira de se atirar condignamente.
Da sedução que o impelia ao crime noite após noite, vítima atrás de vítima, adivinharam-se-lhe inúmeros julgamentos desesperados, mas na realidade nunca chegou a ser apanhado e da pena se haveria de escapar sempre, até ao dia em que um acto insano se apoderou dos seus intentos e perante a perplexidade de todos, resolveu ser ele mesmo a meter o seu próprio pescoço no laço da forca...
Dizem que ainda por lá se encontra o corpo do infeliz. Miseravelmente abandonado no alto do penhasco, mesmo por cima do abismo cuja cobardia o impedira de se atirar condignamente.
Nada fui
Nada serei
Tudo se resume
Ao que de mim sei
Que
Sendo tão pouco
É toda a fortuna que tenho
Sei de onde venho!
O que hoje sou
Nem eu o sei
Serei um fôlego
Do meu desejo
Insatisfeito
Ou
Um leve sopro de alma
Que do meu corpo
Se escapou
Rodeado
Das inquietantes sombras
Que me perseguem
Vagueio-me
No delírio
Deste limbo
Onde me encontro
Onde me penso
Me castigo
Me vivo
E me morro!
Ao abandono
De mim mesmo...
Nada serei
Tudo se resume
Ao que de mim sei
Que
Sendo tão pouco
É toda a fortuna que tenho
Sei de onde venho!
O que hoje sou
Nem eu o sei
Serei um fôlego
Do meu desejo
Insatisfeito
Ou
Um leve sopro de alma
Que do meu corpo
Se escapou
Rodeado
Das inquietantes sombras
Que me perseguem
Vagueio-me
No delírio
Deste limbo
Onde me encontro
Onde me penso
Me castigo
Me vivo
E me morro!
Ao abandono
De mim mesmo...
Soubesse eu
Como escrever
A dor
E este rascunho
Nem o seria...
Do tanto
Que pressinto
No pouco que vejo
Erguer-se-ia uma torre
De palavras mil
E o poema...
O poema acontecia!
Visto carecer
Desse dom
Do saber
Resigno-me
Declarando-me incapaz
Penitencio-me pois
Ajoelhando-me
Aos pés do que não disse
Neste rascunho
De um poema
Que não fiz!
A noite chegava mais cedo, ali trazida pela mão do inverno. As candeias de azeite penduradas nas paredes, que se desfaziam em farrapos de cartão, minadas pelos insaciáveis e devoradores insectos microscópicos que se haviam escapado do seu profético cárcere de milénios esquecidos, não chegavam para alumiar a solidão e fazer frente às sombras que se agigantavam soalho fora, engolindo os trastes que mobilavam o casebre. Fora construído em tempos com o suor dos velhos que o habitavam e que agora se confundiam com os espectros da morte em gestação no ventre da escuridão, com quem partilhavam mais um serão interminável, só entrecortado de tempos a tempos com uma ou outra palavra, interrompendo dessa forma, o silêncio dos pensamentos em que ambos se abandonavam numa mudez de cansaços.
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