Quantas alegrias

de risos e euforias,
quantas tristezas
de lágrimas salgadas...

Chegadas e partidas,
promessas iludidas
esperas desesperadas...

Esperanças renascidas
de vidas desejadas!

E saudades,
saudades...

Quantas correrias
de crianças felizes,
quantas passadas
arrastadas
de vagares penosos
e bengalas...

Tantas supostas histórias
para sempre, sepultadas,
nestas moribundas
paredes caladas...


Foi rei no seu reinado enquanto durou a sua dinastia de amante libertino. Foi amado mas nunca amou. A coberto do seu manto aveludado que o endeusava e encantava as damas que de si se abeiravam, usou e rejeitou a seu belo prazer, satisfazendo os apetites do momento e nada mais do que isso. Foi mestre na sua arte!
Da sedução que o impelia ao crime noite após noite, vítima atrás de vítima, adivinharam-se-lhe inúmeros julgamentos desesperados, mas na realidade nunca chegou a ser apanhado e da pena se haveria de escapar sempre, até ao dia em que um acto insano se apoderou dos seus intentos e perante a perplexidade de todos, resolveu ser ele mesmo a meter o seu próprio pescoço no laço da forca...
Dizem que ainda por lá se encontra o corpo do infeliz. Miseravelmente abandonado no alto do penhasco, mesmo por cima do abismo cuja cobardia o impedira de se atirar condignamente.


Nada fui
Nada serei
Tudo se resume
Ao que de mim sei
Que
Sendo tão pouco
É toda a fortuna que tenho
Sei de onde venho!

O que hoje sou
Nem eu o sei
Serei um fôlego
Do meu desejo
Insatisfeito
Ou
Um leve sopro de alma
Que do meu corpo
Se escapou

Rodeado
Das inquietantes sombras
Que me perseguem
Vagueio-me
No delírio
Deste limbo
Onde me encontro

Onde me penso
Me castigo
Me vivo
E me morro!

Ao abandono
De mim mesmo...



Soubesse eu
Como escrever
A dor
E este rascunho
Nem o seria...

Do tanto
Que pressinto
No pouco que vejo
Erguer-se-ia uma torre
De palavras mil
E o poema...
O poema acontecia!

Visto carecer
Desse dom
Do saber
Resigno-me
Declarando-me incapaz

Penitencio-me pois
Ajoelhando-me
Aos pés do que não disse
Neste rascunho
De um poema
Que não fiz!


A noite chegava mais cedo, ali trazida pela mão do inverno. As candeias de azeite penduradas nas paredes, que se desfaziam em farrapos de cartão, minadas pelos insaciáveis e devoradores insectos microscópicos que se haviam escapado do seu profético cárcere de milénios esquecidos, não chegavam para alumiar a solidão e fazer frente às sombras que se agigantavam soalho fora, engolindo os trastes que mobilavam o casebre. Fora construído em tempos com o suor dos velhos que o habitavam e que agora se confundiam com os espectros da morte em gestação no ventre da escuridão, com quem partilhavam mais um serão interminável, só entrecortado de tempos a tempos com uma ou outra palavra, interrompendo dessa forma, o silêncio dos pensamentos em que ambos se abandonavam numa mudez de cansaços.

A efemeridade das coisas é proporcional ao tempo que duram as importâncias atribuídas às mesmas. Aquilo que hoje é, amanhã já é bem capaz de não o ser. Por isso, há que aproveitar o momento e tirar o maior partido possível!




Lisboa,Sexta Feira dia 06 de Novembro de 2010 às 03.35h


Olá companheira!

Antes de mais, espero que esta minha carta te vá encontrar de saúde ou que pelo menos o reumático te dê algumas folgas de vez em quando, junto daqueles que te são mais queridos e te não tenham abandonado.
Tenho a certeza de que neste momento se esboçou um sorriso nesse teu rosto já muito enrugado mas ainda com traços das feições com que te conheci desde a meninice e que fui acompanhando em segredo, com a cumplicidade do teu espelho onde te miravas amiúdes vezes e ias descobrindo aqui e ali os estragos com que o inexorável tempo te ía brindando. Devagar, devagarinho... mas a preceito. Nunca te ouvi queixar pois sabia-te jovem, por vezes até criança, lá bem no fundo do teu sentir. E no fundo também, era isso que realmente importava. Para ti, foste jovem por toda essa vida fora, tenho a certeza disso!

Lembras-te de quando fizeste 30 anos e da tristeza que se abateu sobre ti nesse dia? Como se o mundo de repente te caísse sob os ombros e te fizesse ter consciência do seu peso em cada tic tac do relógio que trazias no pulso, na sua cavalgada infernal a caminho do fim. Tonta!...
Nem te passava pela cabeça o que a vida te tinha reservado e o que de bom e de menos bom ainda te viria a oferecer. É que, e se bem te recordas, viveste mais e intensamente em meia dúzia de anos do que tinhas vivido até ali.
Aprendeste com os teus próprios erros, remendaste o que pudeste e o resto para o qual não tinhas nenhum remédio de efeito rápido e eficaz, foste deixando andar até que o tempo curasse. E curou mesmo!
Tinhas sonhos como qualquer outro. Alguns não passavam disso mesmo, de sonhos. Mas outros viste como se foram realizando e fazendo de ti uma mulher. Uma pessoa mais segura, mais digna do respeito dos outros, e, o mais importante do que tudo, foste ganhando a pouco e pouco o amor próprio que te tinham roubado, tornando-te mais madura. Ganhaste confiança em ti mesma e aquilo que admiravas nalguns e nunca te passou pela cabeça que algum dia serias capaz de alcançar, chegou sorrateiramente, bateu à tua porta e surpreendeu-te!

Também te vi chorar muitas vezes. Mas no fim deixava-te aliviada. Lavavas o rosto e voltavas com aquele teu sorriso tão característico, com as tuas impulsivas e sonoras gargalhadas junto daqueles com quem convivias no dia a dia, como se nada tivesse acontecido e pronta para enfrentar um novo dia sempre acompanhada da esperança, que, apesar de tudo, nunca te abandonou. Talvez tenha sido ela que te deu forças para ir aguentando o barco que se debatia contra as tempestuosas marés que te assolavam a existência.
Criaste um filho que a certa altura se virou contra ti e tu nem sabias o porquê, ou se calhar até sabias mas preferias acreditar que era aquela rebeldia próprio da idade. O que tu sabias, isso sim, era que não merecias aquilo que ele te dizia e que te deixava arrasada. Ainda assim, mesmo quando, revoltado, se virava contra ti, procuravas sempre dar-lhe razão em qualquer coisa de modo a que te pudesses orgulhar do filho que afinal era teu...
Mais tarde acalmou e revelou-se ser aquela pessoa doce, meiga, equilibrada e dona de valores imprescindíveis a quem se chama ser um indivíduo de carácter; os tais valores que te tinham incutido desde criança e que tu, por sua vez, lhe incutiste também fazendo com que se tornasse uma pessoa de bem.

O que tu não esperavas, era que te acontecesse encontrar alguém importante com quem partilhar o resto da vida, bem sei, já estavas tão habituada a que ninguém se aproximasse de ti com esses propósitos, que te foi difícil acreditar que era realmente verdade e que os sentimentos também podem nascer de um inesperado acaso. De repente teres alguém junto de ti com quem partilhar as pequenas e as grandes coisas do dia a dia. Os medos, as angústias, as dúvidas, as alegrias e tudo o mais que possa acontecer. Nunca ninguém te viu tão feliz como passaste a ser dali para a frente. Acho que só aí conheceste o verdadeiro amor. Aquele que não se esgota como a paixão. Que vai ardendo em lume brando...

Se me estiveres a ler, é sinal de que estava certa no instante em que me ocorreu escrever-te esta carta a ti mesma, para te ser entregue expressamente no dia do teu 80º aniversário e com a recomendação de que fosses tu própria a lê-la.
Com óculos? Com lupa? Não interessa. Desenrasca-te!
Se assim for, é porque a operação que te fizeram ao olho direito há 43 anos atrás (numa altura em que a cegueira era iminente e como última chance de o reverter)e que te deu uma vida nova (uma espécie de milagre, como lhe chamaste) foi um verdadeiro sucesso! Bem haja a alminha do cirurgião que te operou!

Parabéns pelo teu 80º aniversário!
Que contes muitos, com saúde e que eu veja!

Sem mais de relevante, até porque a prosa já vai longa e se fossemos aqui a desfiar fio por fio do tanto que faltava ainda falar, nunca mais acabavas de me ler e os teus convidados devem estar mortinhos por te cantar os parabéns e te ver soprar tantas velas (tinham mesmo de ser 80?! Não sei se ainda terás folgo para tanto!).

Um grande abraço desta que daqui te escreve hoje, de um passado já longínquo mas certa de que bem vivo nas tuas memórias, cheia de esperança que este momento seja de facto real e recheado de emoção, tanta ou mais ainda do que aquela que neste momento me assalta!

Até um dia... companheira!



Ando a ver
Se escapo
À morte
Desde o dia
Em que nasci

Tenho tido sorte...

À cautela
Fiz um pacto
Com a vida
De ser escrava
No seu domínio
E tudo por ela
Fazer
Em troca
Tem-me dado guarida

E se um dia
A morte
Ainda me quiser
Pois que me venha
Buscar
Mas traga a foice
Bem afiada
Para da vida
A alma me ceifar
Sem que a vida
Dê por isso!





8 de Novembro de 2010

Amor,
No tempo e no espaço onde vivo sem teu amor
A existência perdeu seu brilho
E queria dizer-te, ainda hoje, que contigo foi toda a minha felicidade!

Amor perdido é um
Amor que permanentemente dói e dilacera a alma
Nem o vento, nem a chuva, nem o sol, ainda que acariciem meu rosto, poderão fazer-me esquecer o carinho de tuas mãos
O despertar da manhã não traz esperança de mais um dia contigo
Nem o cair da tarde a alegria do reencontro
Nem a noite o calor de teu corpo
E quando nela tento o esquecimento
Tu ainda voltas no sonho…

Mas nada, nada pode reavivar a existência desse amor que só a ti pertence!
Amo-te é a palavra que te digo todos os dias
E é essa mesma palavra que tantas vezes repetiste que ainda ouço
Amor, vemo-nos logo, 365 dias foi apenas um dia!

Que me dizes? A tua célebre frase, tão racional, que sempre atenuava minhas tristezas: «Deixa isso!»?
Como deixo isso? Quem, para além de ti, poderá acompanhar-me nesta travessia?
Deus responde em teu lugar: vai ao jardim! Lá encontrarás a flor da amizade…

Este poema tão belo e cheio de sentimento verdadeiro, foi-me enviado por uma pessoa que eu não conheço, mas à qual me sinto afectivamente ligada pelo sentimento que me desperta e sabendo que partilhou a vida com um amigo que deixou a vida terrena faz, hoje exactamente 1 ano e cuja dor da perda ainda se faz sentir de uma forma absolutamente insuportável…
Sei que este poema não era para estar aqui, mas na impossibilidade de estar noutro lado, é aqui que vai ficar.
Se clicarem aqui, irão certamente perceber o porquê.

Florentino, estejas tu onde estiveres, sei que estás a sorrir...



Escuto-me no caos da inconstância que me grita silvos de
silêncio, importunando-me o aparente sossego reinante na bolha côncava em que me refugio, escondendo-me desta minha perturbante insatisfação, que, sempre que me apanha, me queima desde as entranhas até ao avesso da razão.
Sei-me incapaz perante a perspectiva da criação da obra que nunca será... que não passará de um atabalhoado esboço na sebenta onde se amontoam os riscos e os rabiscos da minha insignificância.
Mas, ainda assim, sinto-me grande quando me penso, sentada na pequenez de um grão de pó onde ainda me permito sonhar.