Escuto-me no caos da inconstância que me grita silvos de
silêncio, importunando-me o aparente sossego reinante na bolha côncava em que me refugio, escondendo-me desta minha perturbante insatisfação, que, sempre que me apanha, me queima desde as entranhas até ao avesso da razão.
Sei-me incapaz perante a perspectiva da criação da obra que nunca será... que não passará de um atabalhoado esboço na sebenta onde se amontoam os riscos e os rabiscos da minha insignificância.
Mas, ainda assim, sinto-me grande quando me penso, sentada na pequenez de um grão de pó onde ainda me permito sonhar.


1.        Qual a sua opinião acerca dos concursos que têm sido promovidos no EscritArtes?

R. - Acho que o EscritArtes é um site bastante dinâmico e por isso mesmo, sempre com boas iniciativas que visam estimular a não menos boa participação dos seus utilizadores. Este último concurso "Imagens da nossa memória" é um bom exemplo disso mesmo, basta olhar para o número de textos enviados e a qualidade dos mesmos.
Confesso que este foi o primeiro em que participei, mas sei que já houve outros com muito boa aderência também, por parte dos colegas de escritas que todos os dias partilham os seus trabalhos e opiniões no site.
Penso que estamos no bom caminho e os concursos são uma excelente forma de manter acesa a chama da criação. Os frutos, esses, estão à vista de todos e agora mais ainda, com a edição dos textos em livro; é a cereja que faltava, em cima do bolo!


2.        Quais os Tópicos que lhe inspiram maior motivação para participar?

R. - Começou por ser o tópico das poesias. Pois foi com a singeleza de poemas simples que dei os meus primeiros passos na blogosfera e mais tarde em sites de escrita, ao lado de outros já veteranos na arte de escrever. Foi assim que me fui dando a conhecer bem como aquilo que ia escrevendo. Sendo tudo na maior das simplicidades, visto que é na simplicidade que me defino enquanto pessoa. Com o passar do tempo e a vontade de descobrir noutras formas de escrita, principalmente na prosa poética, novas formas de expressão daquilo que pretendia transmitir ao leitor, fui dando preferência a esse tópico, tentando aperfeiçoar-me a cada novo trabalho.
Também gosto de escrever textos simples, pequenos e concisos, que contem pequenas histórias ou façam passar determinada mensagem acerca daquilo que sinto em relação a determinado tema que tenha sido o foco da minha atenção pelos mais variados motivos, alguns apenas pretendem expressar a minha indignação perante as coisas que me rodeiam.
Outros são só memória que tenho guardadas na mente e às quais desejo dar um corpo de palavras mas não sendo necessariamente poético. Alguns até são bem nus e crus.
Mas de quando em vez, lá me sai um poema...



3.         Acha que se deveriam criar mais Tópicos dentro deste site, ou bastam os actuais?

R. - Creio que os tópicos existentes são suficientes para dar asas à imaginação. Basta escolher o campo certo onde se pretende voar!


       4.  Poderá dar a sua sugestão para obtenção de maior e se possível, constante, dinamização do EscritArtes?

R. – Nos tempos que correm, com a constante oferta de novos espaços de partilha na internet, como o são as redes sociais que tão bem conhecemos, não é fácil manter as pessoas concentradas num lugar só, por mais aliciante que o mesmo seja.
Mas ajudaria imenso se as pessoas fossem aparecendo e participassem mais activamente. O problema é que a saturação, mais cedo ou mais tarde, também acaba por aparecer e fazer estragos.
Já para não falar da inércia, que quando se instala…

Mas a realização de eventos como os que o EscritArtes tem promovido desde o início, dando a oportunidade de todos se encontrarem ao vivo e a cores, se abraçarem em carne e osso, já é meio caminho andado para o site ser aquele ponto de encontro diário e incontornável.
Ajudaria imenso se houvesse quem por ali estivesse sempre presente, a dar as boas vindas a quem chega de novo, ajudando nisto e naquilo a quem ainda não sabe ou incentivando nos comentários, mas, por mais boa vontade que haja, todos sabemos que é quase impossível de manter essa forma de estar por muito tempo.


5.      5.  Tem ideias/temas para futuros Concursos? Revele-nos, por favor.

R. – Esta é a mais difícil das questões colocadas. Gostaria imenso de ser criativa e original ao ponto de aqui poder dar uma sugestão válida e deveras interessante, que deixasse “bichos-carpinteiros” em todos no sentido de motivar quem quisesse arrasar com as suas participações em massa, mas infelizmente não tenho essa capacidade. O que me ocorre é algo que me alimentou durante muito tempo, onde encontrei inspiração onde outros nem sequer imaginavam. Trata-se de algo tão simples como o acto de escrever inspirado onde quer que seja, só que, neste caso, a fonte da inspiração é uma imagem. Ou seja, a partir de uma imagem à escolha e ao gosto do participante, dar liberdade à imaginação e escrever o que a mesma lhe sugere. Simples, não acham? O resultado é surpreendente, acreditem!
No fim, só teriam de agregar a imagem inspiradora ao texto que dela resultou. Pode ser no género que quiserem, seja poesia, prosa poética ou prosa simples.
Penso que vale a pena tentar. Deixo isso à consideração da administração do site, mas convicta de que teria adesão.





Não sei quantas de mim
Tenho
Quando para trás olho
E são tantas de mim
As que vejo

Se fossem almas
Estaria morta...

Mas não são almas
As que encontro
Nesse ontem
Dos enganos
E desenganos

São outras de mim
Que lá deixei
Bem vivas
Numa vida
Que matei!


Ao voltar do turno da noite, as roupas da criança, desarrumadas e fora do sítio onde as havia deixado, denunciavam o que a boca teimava em negar ao jorrar um rio de mentiras que não condiziam com o que os olhos envidraçados me diziam, deitando imediatamente tudo por terra. Das poucas palavras que a inocência do menino não compreendia, meia dúzia chegaram para confirmar o que as minhas suspeitas mais temiam: - " Já era de noite e fui às cavalitas do pai a casa de um amigo dele naquele sítio que tem muitas casas todas feias". O desespero matava-me todos os dias mais um bocadinho!

Este meu texto ( em ex aequo com o de outro colega de escritas - Tom) foi vencedor do concurso "imagens da nossa memória" do site EscritArtes

PS. Falta ainda referir que os textos não podiam exceder os 600 caracteres e teriam de contar um episódio a que tivéssemos assistido ao longo da vida e que, talvez por ter sido marcante, nos tenha ficado retido na memória como se de uma fotografia se tratasse. Um retrato pincelado de palavras.



Não precisava de muito para se sentir feliz.
Bastava-lhe apenas o casebre que possuía, onde à
noite acendia o lume da fogueira e se aquecia enquanto fazia o caldo das couves. Uma cama de ferro da qual já se tinha lascado a maior parte da tinta que não se percebia de que cor teria sido com dois ou três cobertores comprados com o dinheiro da lã das ovelhas, oferecia-lhe o parco conforto, que, para ela era mais que suficiente visto não conhecer outro. E ali estendia os ossos doridos por culpa do peso dos anos, em busca do merecido descanso ao corpo cansado.
De tempos a tempos, recebia a visita de uma sobrinha-neta, que, além da broa ainda morna da fornada da semana, lhe trazia também um brilho de alegria que logo se lhe via nos olhos de cor cinza, inundando-os de água salgada enquanto sorriam radiosos.
Por vezes também cantava. Não para não chorar a solidão dos dias, mas para se sentir um pouco mais acompanhada...



O que sou
Nem eu sei
Quando me perco
De novo
Antes de me achar
Em pensamentos
Tantas vezes desconexos...

Invento-me
Em cada esquina
De ruas improváveis
Demorando-me nas palavras
Que procuro
Compondo estes versos
Onde me reinvento
Peneirando-os aos ventos
Que me sopram
Luares de Outono...

Vivo-me e morro-me
Nestas terras do esquecimento
Em desassossegos
Constantes
Pela busca incessante
De mim mesmo!



Ali estava ele todo janota! Não fossem as circunstancias que para ali o trouxeram e quase que poderia aparecer numa boda mesmo que não fosse convidado, que certamente ninguém iria reparar.
Mas não. Era ali que tinha de estar! Naquele lugar deprimente, rodeado de gente decrépita num mundinho de inutilidades incomuns. Se pudesse, transferir-se-ia mentalmente para outro lugar qualquer, mais de acordo com a sua aparente condição, já para não falar da fatiota que muito o compunha, disfarçando-lhe até a (des)graça com que havia nascido e para a qual não se conheciam grandes remédios...
Na impossibilidade de tal, urgia concentrar a atenção em qualquer coisa que o abstraísse de tudo aquilo. E enquanto não despachavam o morto, olhou em seu redor, também ele mortinho por descobrir algo, para, por sua vez, ser ele a matar o tempo daquele compasso de espera interminável. Foi então que se quedou a observar um pingo que se alongava e se recolhia de novo, como que a tomar balanço do alto de um precipício em jeito de torneira enferrujada antes de se lançar no abismo que culminava num lastro acastanhado que cobria o fundo daquilo que supostamente deveria ser um lavatório. Dezenas de outras gotas, igualmente ferrugentas, se lhe seguiam, obedecendo sempre aquele ritual que se não percebia, de alongamentos e encolhimentos imediatamente antes do salto final.
Entretanto já tinha assomado à soleira da porta o cangalheiro-mor que exibia numa das mãos com ar vitorioso, a guia de marcha que se esperava. Desprezou a torneira ferrugenta e as suas gotas suicidas e seguiu em direcção ao caixão, empurrando a carreta que o transportava.



Em suspenso pelo fino fio da lembrança, ostentava no pensamento um pequeno pedaço de vida amarelecido pelo tempo que lhe desenhara traços de encanto, despertando sentimentos até ali desconhecidos. Coisas que os olhos não vêem, mas que a alma sente quando tocada pela sensação de vivências adormecidas ao longo de uma vida que se diluiu no éter em menos de nada, ressequindo-nos aos poucos e da qual sobraram pequenos cristais que brilham sempre que o cérebro se desliga do presente e se transforma numa tela mágica onde só passam as imagens do que desejamos, arquivadas na gaveta das relíquias de valor inestimável. É esse o tesouro da conquista pela sã harmonia do"eu"em constantes desassossegos motivados pela luta diária que só no fim nos apercebemos, girar em torno de coisa nenhuma!...




Eram as memórias que a não largavam, que tinha agarradas a si como uma lapa grudada na rocha; o sedimento de uma infância sombria, gorduroso e peganhento a salitrar-lhe as frágeis paredes da alma, a corroer-lhe o ser invisível que lhe habita as profundezas do íntimo onde se guarda o sentimento verdadeiro, aquele que esconde do resto do mundo...
Encontrei-a numa daquelas avenidas chiques da moda, para onde se mudaram as pessoas modernas e onde se passeava aparentemente descontraída, mas bastou um só sopro de brisa vindo dessa outra vida para se deixar cair na inevitável melancolia que lhe assaltou as débeis defesas do castelo de ar que construíra em torno de si para se livrar dos fantasmas que a perseguiam desde o dia em que os relógios pararam e lhe passaram a contar o tempo num ciclo errado, como se ela tivesse saltado para o interior de um espelho e o seu mundo se tivesse virado ao contrário, passado a estar, de súbito, no lado avesso da vida.




Era uma estória
Vinda dos tempos
Longínquos
Há muito sumidos
Nas brumas da memória
Das gentes
Da minha terra

Rezava então
A dita
Que por certo
Mais não seria
Do que uma lenda...

A lenda de um pai
E das ricas
Filhas suas

Levassem eles
O tempo que levassem
A descer ao Domingo
Lá do cimo
Da serra
Até às portas da vila
De Côja
Pois que não se rezaria
A missa
Enquanto o pai e as donas
Ali não chegassem!

Quem não sabia
Fica então a saber agora
Que dessa curiosa estória
Vem o nome
Da minha pequena aldeia
Perdida nos montes
Da serra do Açor:

Pai das Donas