PS. Falta ainda referir que os textos não podiam exceder os 600 caracteres e teriam de contar um episódio a que tivéssemos assistido ao longo da vida e que, talvez por ter sido marcante, nos tenha ficado retido na memória como se de uma fotografia se tratasse. Um retrato pincelado de palavras.
Ao voltar do turno da noite, as roupas da criança, desarrumadas e fora do sítio onde as havia deixado, denunciavam o que a boca teimava em negar ao jorrar um rio de mentiras que não condiziam com o que os olhos envidraçados me diziam, deitando imediatamente tudo por terra. Das poucas palavras que a inocência do menino não compreendia, meia dúzia chegaram para confirmar o que as minhas suspeitas mais temiam: - " Já era de noite e fui às cavalitas do pai a casa de um amigo dele naquele sítio que tem muitas casas todas feias". O desespero matava-me todos os dias mais um bocadinho!
Este meu texto ( em ex aequo com o de outro colega de escritas - Tom) foi vencedor do concurso "imagens da nossa memória" do site EscritArtes
PS. Falta ainda referir que os textos não podiam exceder os 600 caracteres e teriam de contar um episódio a que tivéssemos assistido ao longo da vida e que, talvez por ter sido marcante, nos tenha ficado retido na memória como se de uma fotografia se tratasse. Um retrato pincelado de palavras.
Não precisava de muito para se sentir feliz.
Bastava-lhe apenas o casebre que possuía, onde à
noite acendia o lume da fogueira e se aquecia enquanto fazia o caldo das couves. Uma cama de ferro da qual já se tinha lascado a maior parte da tinta que não se percebia de que cor teria sido com dois ou três cobertores comprados com o dinheiro da lã das ovelhas, oferecia-lhe o parco conforto, que, para ela era mais que suficiente visto não conhecer outro. E ali estendia os ossos doridos por culpa do peso dos anos, em busca do merecido descanso ao corpo cansado.
De tempos a tempos, recebia a visita de uma sobrinha-neta, que, além da broa ainda morna da fornada da semana, lhe trazia também um brilho de alegria que logo se lhe via nos olhos de cor cinza, inundando-os de água salgada enquanto sorriam radiosos.
Por vezes também cantava. Não para não chorar a solidão dos dias, mas para se sentir um pouco mais acompanhada...
Bastava-lhe apenas o casebre que possuía, onde à
noite acendia o lume da fogueira e se aquecia enquanto fazia o caldo das couves. Uma cama de ferro da qual já se tinha lascado a maior parte da tinta que não se percebia de que cor teria sido com dois ou três cobertores comprados com o dinheiro da lã das ovelhas, oferecia-lhe o parco conforto, que, para ela era mais que suficiente visto não conhecer outro. E ali estendia os ossos doridos por culpa do peso dos anos, em busca do merecido descanso ao corpo cansado.
De tempos a tempos, recebia a visita de uma sobrinha-neta, que, além da broa ainda morna da fornada da semana, lhe trazia também um brilho de alegria que logo se lhe via nos olhos de cor cinza, inundando-os de água salgada enquanto sorriam radiosos.
Por vezes também cantava. Não para não chorar a solidão dos dias, mas para se sentir um pouco mais acompanhada...
O que sou
Nem eu sei
Quando me perco
De novo
Antes de me achar
Em pensamentos
Tantas vezes desconexos...
Invento-me
Em cada esquina
De ruas improváveis
Demorando-me nas palavras
Que procuro
Compondo estes versos
Onde me reinvento
Peneirando-os aos ventos
Que me sopram
Luares de Outono...
Vivo-me e morro-me
Nestas terras do esquecimento
Em desassossegos
Constantes
Pela busca incessante
De mim mesmo!
Nem eu sei
Quando me perco
De novo
Antes de me achar
Em pensamentos
Tantas vezes desconexos...
Invento-me
Em cada esquina
De ruas improváveis
Demorando-me nas palavras
Que procuro
Compondo estes versos
Onde me reinvento
Peneirando-os aos ventos
Que me sopram
Luares de Outono...
Vivo-me e morro-me
Nestas terras do esquecimento
Em desassossegos
Constantes
Pela busca incessante
De mim mesmo!
Ali estava ele todo janota! Não fossem as circunstancias que para ali o trouxeram e quase que poderia aparecer numa boda mesmo que não fosse convidado, que certamente ninguém iria reparar.
Mas não. Era ali que tinha de estar! Naquele lugar deprimente, rodeado de gente decrépita num mundinho de inutilidades incomuns. Se pudesse, transferir-se-ia mentalmente para outro lugar qualquer, mais de acordo com a sua aparente condição, já para não falar da fatiota que muito o compunha, disfarçando-lhe até a (des)graça com que havia nascido e para a qual não se conheciam grandes remédios...
Na impossibilidade de tal, urgia concentrar a atenção em qualquer coisa que o abstraísse de tudo aquilo. E enquanto não despachavam o morto, olhou em seu redor, também ele mortinho por descobrir algo, para, por sua vez, ser ele a matar o tempo daquele compasso de espera interminável. Foi então que se quedou a observar um pingo que se alongava e se recolhia de novo, como que a tomar balanço do alto de um precipício em jeito de torneira enferrujada antes de se lançar no abismo que culminava num lastro acastanhado que cobria o fundo daquilo que supostamente deveria ser um lavatório. Dezenas de outras gotas, igualmente ferrugentas, se lhe seguiam, obedecendo sempre aquele ritual que se não percebia, de alongamentos e encolhimentos imediatamente antes do salto final.
Entretanto já tinha assomado à soleira da porta o cangalheiro-mor que exibia numa das mãos com ar vitorioso, a guia de marcha que se esperava. Desprezou a torneira ferrugenta e as suas gotas suicidas e seguiu em direcção ao caixão, empurrando a carreta que o transportava.
Mas não. Era ali que tinha de estar! Naquele lugar deprimente, rodeado de gente decrépita num mundinho de inutilidades incomuns. Se pudesse, transferir-se-ia mentalmente para outro lugar qualquer, mais de acordo com a sua aparente condição, já para não falar da fatiota que muito o compunha, disfarçando-lhe até a (des)graça com que havia nascido e para a qual não se conheciam grandes remédios...
Na impossibilidade de tal, urgia concentrar a atenção em qualquer coisa que o abstraísse de tudo aquilo. E enquanto não despachavam o morto, olhou em seu redor, também ele mortinho por descobrir algo, para, por sua vez, ser ele a matar o tempo daquele compasso de espera interminável. Foi então que se quedou a observar um pingo que se alongava e se recolhia de novo, como que a tomar balanço do alto de um precipício em jeito de torneira enferrujada antes de se lançar no abismo que culminava num lastro acastanhado que cobria o fundo daquilo que supostamente deveria ser um lavatório. Dezenas de outras gotas, igualmente ferrugentas, se lhe seguiam, obedecendo sempre aquele ritual que se não percebia, de alongamentos e encolhimentos imediatamente antes do salto final.
Entretanto já tinha assomado à soleira da porta o cangalheiro-mor que exibia numa das mãos com ar vitorioso, a guia de marcha que se esperava. Desprezou a torneira ferrugenta e as suas gotas suicidas e seguiu em direcção ao caixão, empurrando a carreta que o transportava.
| Em suspenso pelo fino fio da lembrança, ostentava no pensamento um pequeno pedaço de vida amarelecido pelo tempo que lhe desenhara traços de encanto, despertando sentimentos até ali desconhecidos. Coisas que os olhos não vêem, mas que a alma sente quando tocada pela sensação de vivências adormecidas ao longo de uma vida que se diluiu no éter em menos de nada, ressequindo-nos aos poucos e da qual sobraram pequenos cristais que brilham sempre que o cérebro se desliga do presente e se transforma numa tela mágica onde só passam as imagens do que desejamos, arquivadas na gaveta das relíquias de valor inestimável. É esse o tesouro da conquista pela sã harmonia do"eu"em constantes desassossegos motivados pela luta diária que só no fim nos apercebemos, girar em torno de coisa nenhuma!... |
Eram as memórias que a não largavam, que tinha agarradas a si como uma lapa grudada na rocha; o sedimento de uma infância sombria, gorduroso e peganhento a salitrar-lhe as frágeis paredes da alma, a corroer-lhe o ser invisível que lhe habita as profundezas do íntimo onde se guarda o sentimento verdadeiro, aquele que esconde do resto do mundo...
Encontrei-a numa daquelas avenidas chiques da moda, para onde se mudaram as pessoas modernas e onde se passeava aparentemente descontraída, mas bastou um só sopro de brisa vindo dessa outra vida para se deixar cair na inevitável melancolia que lhe assaltou as débeis defesas do castelo de ar que construíra em torno de si para se livrar dos fantasmas que a perseguiam desde o dia em que os relógios pararam e lhe passaram a contar o tempo num ciclo errado, como se ela tivesse saltado para o interior de um espelho e o seu mundo se tivesse virado ao contrário, passado a estar, de súbito, no lado avesso da vida.
Encontrei-a numa daquelas avenidas chiques da moda, para onde se mudaram as pessoas modernas e onde se passeava aparentemente descontraída, mas bastou um só sopro de brisa vindo dessa outra vida para se deixar cair na inevitável melancolia que lhe assaltou as débeis defesas do castelo de ar que construíra em torno de si para se livrar dos fantasmas que a perseguiam desde o dia em que os relógios pararam e lhe passaram a contar o tempo num ciclo errado, como se ela tivesse saltado para o interior de um espelho e o seu mundo se tivesse virado ao contrário, passado a estar, de súbito, no lado avesso da vida.
Era uma estória
Vinda dos tempos
Longínquos
Há muito sumidos
Nas brumas da memória
Das gentes
Da minha terra
Rezava então
A dita
Que por certo
Mais não seria
Do que uma lenda...
A lenda de um pai
E das ricas
Filhas suas
Levassem eles
O tempo que levassem
A descer ao Domingo
Lá do cimo
Da serra
Até às portas da vila
De Côja
Pois que não se rezaria
A missa
Enquanto o pai e as donas
Ali não chegassem!
Quem não sabia
Fica então a saber agora
Que dessa curiosa estória
Vem o nome
Da minha pequena aldeia
Perdida nos montes
Da serra do Açor:
Pai das Donas
Vinda dos tempos
Longínquos
Há muito sumidos
Nas brumas da memória
Das gentes
Da minha terra
Rezava então
A dita
Que por certo
Mais não seria
Do que uma lenda...
A lenda de um pai
E das ricas
Filhas suas
Levassem eles
O tempo que levassem
A descer ao Domingo
Lá do cimo
Da serra
Até às portas da vila
De Côja
Pois que não se rezaria
A missa
Enquanto o pai e as donas
Ali não chegassem!
Quem não sabia
Fica então a saber agora
Que dessa curiosa estória
Vem o nome
Da minha pequena aldeia
Perdida nos montes
Da serra do Açor:
Pai das Donas
Fiz a mala com alguma antecedência, movida pela ânsia que me tolhia o pensamento perante a perspectiva de uma liberdade ainda que utópica, mas que eu desconhecia...
Parti ao anoitecer de um dia que me ficou marcado para sempre. Não é que me lembre que dia era ao certo, mas pelo significado daquilo que considero ser um vil abandono na hora da morte.
Ferido numa bulha feia de machos pelo direito de acasalar com uma certa fêmea que por ali andava com o cio, apareceu-me em casa com uma pata a arrastar. Curei-lhe a ferida como podia, se bem que o buraco deixado à vista era assustadoramente enorme! Sem saber o que mais fazer que lhe devolvesse a vida ou pelo menos lhe aliviasse as dores da infecção que lhe devorava a carne, agonizava há vários dias numa cama improvisada no meio das aparas de madeira a um canto da oficina.
Bem que lhe vi a súplica no olhar triste e na mudez do miar cujas forças já não lhe permitiam soltar mais do que um ténue e quase inaudível ronronar, quando lhe passei a mão pela cabeça naquele que seria o derradeiro gesto de carinho dos tantos que havíamos partilhado e que agora, qual ingrata criatura sem sentimentos que tão miseravelmente o deixava ao abandono das mãos da cruel injustiça que lhe tinha varado o destino.
No dia seguinte a notícia chegou bem cedo pelo telefone: - O teu gato morreu!
Parti ao anoitecer de um dia que me ficou marcado para sempre. Não é que me lembre que dia era ao certo, mas pelo significado daquilo que considero ser um vil abandono na hora da morte.
Ferido numa bulha feia de machos pelo direito de acasalar com uma certa fêmea que por ali andava com o cio, apareceu-me em casa com uma pata a arrastar. Curei-lhe a ferida como podia, se bem que o buraco deixado à vista era assustadoramente enorme! Sem saber o que mais fazer que lhe devolvesse a vida ou pelo menos lhe aliviasse as dores da infecção que lhe devorava a carne, agonizava há vários dias numa cama improvisada no meio das aparas de madeira a um canto da oficina.
Bem que lhe vi a súplica no olhar triste e na mudez do miar cujas forças já não lhe permitiam soltar mais do que um ténue e quase inaudível ronronar, quando lhe passei a mão pela cabeça naquele que seria o derradeiro gesto de carinho dos tantos que havíamos partilhado e que agora, qual ingrata criatura sem sentimentos que tão miseravelmente o deixava ao abandono das mãos da cruel injustiça que lhe tinha varado o destino.
No dia seguinte a notícia chegou bem cedo pelo telefone: - O teu gato morreu!
O que se segue, são flash's de instantes remotos, dos mais antigos que possuo; arrancados lá bem do fundo do poço das minhas lembranças.
Meti-me numa cápsula do tempo e viajei sem destino.
Achei-me no mesmo lugar de sempre, de onde, na verdade, nunca cheguei a partir...
Aquele lugar é refém das minhas memórias e é para lá que fujo em segredo tantas e tantas vezes quando me quero esconder deste tempo de agora.
E vou pelos carreiros que conheço como as minhas próprias mãos. Tanto na ida como na vinda, tenho a companhia sempre pronta e desinteressada dos pardais e dos cucos esquivos, que me seguem lá no alto dos ramos dos pinheiros que me levam pela sombra.
A velha casa de pedra serve-me de abrigo aquando da trovoada inesperada. Existe lá uma prateleira com livros já meio desfeitos e aos quais faltam muitas folhas, mas, nas que lhes restam, há sempre qualquer coisa que ainda não tinha visto nem lido...
O velho abrunheiro, ao fundo da quelhada grande, oferece-me a sombra apetecível onde me deito descansada sob a relva e durmo uma sesta merecida.
Há joaninhas que se misturam com morangos selvagens, salpicando de vermelho o ervascal abandonado por onde me entretenho a brincar enquanto a minha mãe trata da rega dos feijoeiros ali ao lado.
Pela noitinha, de volta a casa, eu e os cabritos saltitamos contentes pelos muros adiante, ou não fossemos todos crianças!
É dia da matança do porco. Levanto-me mais cedo que o costume e corro para o mais longe que posso. Sento-me numa pedra, meto os dedos nos ouvidos (não quero ouvir os guinchos do pobre coitado) e espero uma boa meia hora... depois regresso.
Um serão quente. O canto dos grilos a cortar o silêncio. Um petromax na mão, alumia-nos o caminho. Eu às cavalitas do meu pai. Um caminho estreito. Uma casa com um outro petromax pendurado no tecto. Um monte de espigas à espera de serem debulhadas... meia dúzia de pessoas, cada uma com o seu mangual a bater uma a uma e o milho vai saltando e formando um imenso lago de grãos...
Há conversas, há risos e gargalhadas, há histórias de outros tempos ainda mais remotos. É hora de voltar. Amanhã o milho irá ao sol...
De tamancos com sola de pau, sobe ligeira a escada encostada aos ramos da oliveira grande do pomar. A mãe, aflita, chama-a, mas ela, teimosa, finge que não ouve e sobe cada vez mais depressa. Sobe até ao fim; até ao último banço da escada de madeira...
A fogueira crepitava e erguia labaredas altas, tal como ela gostava.
Sentadas no bordo, de mãos e pés esticados em direcção ao lume, riamos despreocupadas. Talvez o nosso riso se devesse apenas ao conforto de ver aquele lume a arder ali mesmo à nossa frente, a aquecer-nos por fora e por dentro. Nunca mais comi uma sopa de couves aferventada tão saborosa como aquela... Ao lado, uma malga de vinho e um naco de broa com sardinha, acabadinha de sair das brasas da fogueira.
Noutro dia, no telhado da mesma casa, sentadas nas lajes aquecidas pelo sol de Março, pedia-me que lhe enfiasse as agulhas com linha preta porque os seus olhos cor de mar rasavam-se de água e não a deixavam vislumbrar o buraco minúsculo da agulha. Estava sempre a coser qualquer coisa enquanto me ía contando histórias de lobos e de homens.
Tinha na curva dos anos uma espondilite incorporada que a obrigava a caminhar de nariz rasteiro ao chão, impedindo-a assim de contemplar o céu e tudo o resto que existia acima do horizonte rastejante ao qual os seus olhos estavam confinados, limitando-se unicamente às raízes e às pedras do caminho por onde caminhava sempre sem ver ninguém; ainda que, a dois passos de si, alguém consigo se cruzasse. Se lhe falassem, respondia prontamente com o cumprimento costumeiro de um "bom dia" ou "boa tarde" logo seguido da pergunta que se impunha: "quem está aí?" Se fosse alguém conhecido, ainda fazia um esforço e erguia-se o mais que podia numa tentativa vã de encontrar o rosto de quem do alto lhe falava, se não fosse, poupava-se ao esforço desnecessário.
A capucha pela cabeça aparava-lhe a chuva e o vento que no Inverno a não impediam dos cuidados que tinha.
Do sol de Verão, sentia-lhe o calor que lhe queimava a pele dos braços cansados e a luminosidade espelhada no alcatrão da estrada por onde seguia a caminho da vida que lhe fugia...
A capucha pela cabeça aparava-lhe a chuva e o vento que no Inverno a não impediam dos cuidados que tinha.
Do sol de Verão, sentia-lhe o calor que lhe queimava a pele dos braços cansados e a luminosidade espelhada no alcatrão da estrada por onde seguia a caminho da vida que lhe fugia...
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