Em suspenso pelo fino fio da lembrança, ostentava no pensamento um pequeno pedaço de vida amarelecido pelo tempo que lhe desenhara traços de encanto, despertando sentimentos até ali desconhecidos. Coisas que os olhos não vêem, mas que a alma sente quando tocada pela sensação de vivências adormecidas ao longo de uma vida que se diluiu no éter em menos de nada, ressequindo-nos aos poucos e da qual sobraram pequenos cristais que brilham sempre que o cérebro se desliga do presente e se transforma numa tela mágica onde só passam as imagens do que desejamos, arquivadas na gaveta das relíquias de valor inestimável. É esse o tesouro da conquista pela sã harmonia do"eu"em constantes desassossegos motivados pela luta diária que só no fim nos apercebemos, girar em torno de coisa nenhuma!...




Eram as memórias que a não largavam, que tinha agarradas a si como uma lapa grudada na rocha; o sedimento de uma infância sombria, gorduroso e peganhento a salitrar-lhe as frágeis paredes da alma, a corroer-lhe o ser invisível que lhe habita as profundezas do íntimo onde se guarda o sentimento verdadeiro, aquele que esconde do resto do mundo...
Encontrei-a numa daquelas avenidas chiques da moda, para onde se mudaram as pessoas modernas e onde se passeava aparentemente descontraída, mas bastou um só sopro de brisa vindo dessa outra vida para se deixar cair na inevitável melancolia que lhe assaltou as débeis defesas do castelo de ar que construíra em torno de si para se livrar dos fantasmas que a perseguiam desde o dia em que os relógios pararam e lhe passaram a contar o tempo num ciclo errado, como se ela tivesse saltado para o interior de um espelho e o seu mundo se tivesse virado ao contrário, passado a estar, de súbito, no lado avesso da vida.




Era uma estória
Vinda dos tempos
Longínquos
Há muito sumidos
Nas brumas da memória
Das gentes
Da minha terra

Rezava então
A dita
Que por certo
Mais não seria
Do que uma lenda...

A lenda de um pai
E das ricas
Filhas suas

Levassem eles
O tempo que levassem
A descer ao Domingo
Lá do cimo
Da serra
Até às portas da vila
De Côja
Pois que não se rezaria
A missa
Enquanto o pai e as donas
Ali não chegassem!

Quem não sabia
Fica então a saber agora
Que dessa curiosa estória
Vem o nome
Da minha pequena aldeia
Perdida nos montes
Da serra do Açor:

Pai das Donas



Fiz a mala com alguma antecedência, movida pela ânsia que me tolhia o pensamento perante a perspectiva de uma liberdade ainda que utópica, mas que eu desconhecia...
Parti ao anoitecer de um dia que me ficou marcado para sempre. Não é que me lembre que dia era ao certo, mas pelo significado daquilo que considero ser um vil abandono na hora da morte.
Ferido numa bulha feia de machos pelo direito de acasalar com uma certa fêmea que por ali andava com o cio, apareceu-me em casa com uma pata a arrastar. Curei-lhe a ferida como podia, se bem que o buraco deixado à vista era assustadoramente enorme! Sem saber o que mais fazer que lhe devolvesse a vida ou pelo menos lhe aliviasse as dores da infecção que lhe devorava a carne, agonizava há vários dias numa cama improvisada no meio das aparas de madeira a um canto da oficina.
Bem que lhe vi a súplica no olhar triste e na mudez do miar cujas forças já não lhe permitiam soltar mais do que um ténue e quase inaudível ronronar, quando lhe passei a mão pela cabeça naquele que seria o derradeiro gesto de carinho dos tantos que havíamos partilhado e que agora, qual ingrata criatura sem sentimentos que tão miseravelmente o deixava ao abandono das mãos da cruel injustiça que lhe tinha varado o destino.
No dia seguinte a notícia chegou bem cedo pelo telefone: - O teu gato morreu!


O que se segue, são flash's de instantes remotos, dos mais antigos que possuo; arrancados lá bem do fundo do poço das minhas lembranças.

Meti-me numa cápsula do tempo e viajei sem destino.
Achei-me no mesmo lugar de sempre, de onde, na verdade, nunca cheguei a partir...
Aquele lugar é refém das minhas memórias e é para lá que fujo em segredo tantas e tantas vezes quando me quero esconder deste tempo de agora.

E vou pelos carreiros que conheço como as minhas próprias mãos. Tanto na ida como na vinda, tenho a companhia sempre pronta e desinteressada dos pardais e dos cucos esquivos, que me seguem lá no alto dos ramos dos pinheiros que me levam pela sombra.

A velha casa de pedra serve-me de abrigo aquando da trovoada inesperada. Existe lá uma prateleira com livros já meio desfeitos e aos quais faltam muitas folhas, mas, nas que lhes restam, há sempre qualquer coisa que ainda não tinha visto nem lido...

O velho abrunheiro, ao fundo da quelhada grande, oferece-me a sombra apetecível onde me deito descansada sob a relva e durmo uma sesta merecida.
Há joaninhas que se misturam com morangos selvagens, salpicando de vermelho o ervascal abandonado por onde me entretenho a brincar enquanto a minha mãe trata da rega dos feijoeiros ali ao lado.
Pela noitinha, de volta a casa, eu e os cabritos saltitamos contentes pelos muros adiante, ou não fossemos todos crianças!

É dia da matança do porco. Levanto-me mais cedo que o costume e corro para o mais longe que posso. Sento-me numa pedra, meto os dedos nos ouvidos (não quero ouvir os guinchos do pobre coitado) e espero uma boa meia hora... depois regresso.

Um serão quente. O canto dos grilos a cortar o silêncio. Um petromax na mão, alumia-nos o caminho. Eu às cavalitas do meu pai. Um caminho estreito. Uma casa com um outro petromax pendurado no tecto. Um monte de espigas à espera de serem debulhadas... meia dúzia de pessoas, cada uma com o seu mangual a bater uma a uma e o milho vai saltando e formando um imenso lago de grãos...
Há conversas, há risos e gargalhadas, há histórias de outros tempos ainda mais remotos. É hora de voltar. Amanhã o milho irá ao sol...

De tamancos com sola de pau, sobe ligeira a escada encostada aos ramos da oliveira grande do pomar. A mãe, aflita, chama-a, mas ela, teimosa, finge que não ouve e sobe cada vez mais depressa. Sobe até ao fim; até ao último banço da escada de madeira...

A fogueira crepitava e erguia labaredas altas, tal como ela gostava.
Sentadas no bordo, de mãos e pés esticados em direcção ao lume, riamos despreocupadas. Talvez o nosso riso se devesse apenas ao conforto de ver aquele lume a arder ali mesmo à nossa frente, a aquecer-nos por fora e por dentro. Nunca mais comi uma sopa de couves aferventada tão saborosa como aquela... Ao lado, uma malga de vinho e um naco de broa com sardinha, acabadinha de sair das brasas da fogueira.

Noutro dia, no telhado da mesma casa, sentadas nas lajes aquecidas pelo sol de Março, pedia-me que lhe enfiasse as agulhas com linha preta porque os seus olhos cor de mar rasavam-se de água e não a deixavam vislumbrar o buraco minúsculo da agulha. Estava sempre a coser qualquer coisa enquanto me ía contando histórias de lobos e de homens.




Tinha na curva dos anos uma espondilite incorporada que a obrigava a caminhar de nariz rasteiro ao chão, impedindo-a assim de contemplar o céu e tudo o resto que existia acima do horizonte rastejante ao qual os seus olhos estavam confinados, limitando-se unicamente às raízes e às pedras do caminho por onde caminhava sempre sem ver ninguém; ainda que, a dois passos de si, alguém consigo se cruzasse. Se lhe falassem, respondia prontamente com o cumprimento costumeiro de um "bom dia" ou "boa tarde" logo seguido da pergunta que se impunha: "quem está aí?" Se fosse alguém conhecido, ainda fazia um esforço e erguia-se o mais que podia numa tentativa vã de encontrar o rosto de quem do alto lhe falava, se não fosse, poupava-se ao esforço desnecessário.
A capucha pela cabeça aparava-lhe a chuva e o vento que no Inverno a não impediam dos cuidados que tinha.
Do sol de Verão, sentia-lhe o calor que lhe queimava a pele dos braços cansados e a luminosidade espelhada no alcatrão da estrada por onde seguia a caminho da vida que lhe fugia...


Há já vários dias que não escrevia nada. Por preguiça, cansaço, desinspiração ou o que quer que fosse, a inércia tomou-lhe conta do corpo ao ponto de se convencer de que por uma boa temporada não o iria conseguir fazer. Não da forma como queria.... Mas o inesperado aconteceu. Nessa tarde, ao ouvir uma música que já não ouvia há muito tempo e que lhe marcara a adolescência, foi como se um botão tivesse ligado algo no interior da sua mente e desbloqueasse algum canal misterioso que lhe trazia uma enxurrada de ideias de coisas até aí escondidas no subconsciente e das quais lhe desconhecia a existência. De modo que, se encheu de uma vontade urgente e escreve-las passou a ser a sua prioridade numero um, antes que se apagasse tudo e não restasse nem um só vestígio do que parecia ser um mar de pensamentos onde os peixes eram as ideias que lhe saltavam em ânsias de serem pescadas. Penitenciou-se por não trazer consigo aquele bloquinho mais a caneta que costumava acompanha-la para todo o lado mas que raramente usava, e logo agora, que tanto precisava, não os tinha consigo!
Mal podia esperar a hora do regresso! Assim que chegasse, iria de imediato desafiar o teclado do computador que ultimamente só lhe servia para futilidades e outras coisas de somenos importância, comprometendo-se a não lhe dar descanso durante o tempo que fosse preciso, noite fora.
Correu para a cadeira do computador, procurou a música milagrosa no You Tube e desatou a teclar freneticamente...




Fui ao rio certa manhã
levava saias compridas
levava, que estava frio
para me cobrir, agasalhos
... todos feitinhos de lã

Começou-se o rio a rir
do meu suave jeito d'andar
e do verde dos meus olhos
que o estavam a fascinar

- Menina, toca a despir
que te quero contemplar...
mergulha em mim
que sou rio, não te irei afogar

Fosses flor eu te daria
uma abelha p'ra te amar
Mas és mulher, és vaidosa
dou-te minhas águas tranquilas
para que te possas mirar

Oh, Rio de que tu falas?
Sim, sou mulher, ainda menina
Da Bordadura do Alva...
Não farei a minha sina

Tenho asas, quero voar
não me deixarei enredar
que me queres apaixonar

Ficou o Rio a chorar
pelos olhos da menina...

Ficou a menina a sonhar
pelo abraço do Rio




(Poema feito de versos entrelaçados.
Alguns são meus, outros são da amiga e poetisa Mel de Carvalho)



A casa de pedra, miserável, com telhado de lajes. Na escada, uma rapariguinha triste, de corpo miúdo e esguio, vai folheando um livro de banda desenhada cuja história se perdeu no tempo, confundindo-se com a dos próprios protagonistas, Mónica e João Cebolinha…
Corria nas bocas do povo que a mãe se tinha enforcado com uma corda que prendeu a uma trave do curral das ovelhas. Havia também quem dissesse que não tinha sido bem assim. Desconfiavam até, de algo bem mais escabroso. Talvez um homicídio levado a cabo por uma cegueira de ciúmes… Nunca se soube ao certo. Certo foi, que por causa disso, foi separada do irmão que ficara com o pai e levada para o pé da sua avó, que raramente visitava. Que quase nem conhecia.
Tinha as unhas roídas até ao sabugo, e mesmo assim, continuava a roê-las pelo meio escavando buracos no lombo das cabeças dos dedos de modo que, parecia que os ratos a iam devorando de noite enquanto dormia.
Costumava ir para o pé dela. Ela deixava-me folhear os seus livros de bonecos que eu não tinha. Por vezes, sentia o aroma das maçãs de bravo mofo que se esgueirava pela frincha da porta encostada. Aquele aroma… ainda hoje o sei de cor.
Um belo dia, em que voltei a procurar pela sua companhia, disseram-me que o pai a tinha vindo buscar… nunca mais a vi.
Muitos anos depois, soube que tinha casado com um homem rico, que vivia no Porto e que já tinha pago duas ou três desintoxicações ao irmão, que, ao que parece, deixou de ter aquele ar inibido que mostrava (quando moço já mais crescido e até muito bem parecido) sempre que por ali aparecia com o seu pai, geralmente por altura das festas, e se tinha metido por caminhos espinhosos de vícios destruidores de corpos e de almas.
No ano passado encontrei-o por acaso. Parecia um pedinte, bêbedo de miséria…


Se amar alguém
For mais do que tudo aquilo
Que as palavras possam dizer
Então
Isto que eu tenho
Cá dentro
Que me mói
O sentimento
É bem capaz de o ser!

Amar
Não é só sorrir
Ou escrever frases de amor
Nos muros brancos da vida
Nem tão pouco
Gritar aos quatro ventos
O que o outro deseja ouvir...
Amar é muito mais do que isso
É aprender a admirar
O que nos fazem sentir
Os pequenos detalhes
Em doses mínimas
De prazeres partilhados...

Mas é também sofrer sozinho
Fustigar-se até a ferida sangrar
E deixar o sangue escorrer
Sobre o erro cometido...
É também engolir em seco
Quando se quer cortar o silêncio
Em fatias pequenas
E dar-se conta
De que não possui de momento
Qualquer ferramenta
Para isso

Amar
É admitir que se perdeu a razão
Ousando ir até mais longe
E querer com este poema
Subir ao altar da tua emoção
E porventura...
Alcançar o teu desejado perdão!