Apenas um resquício de uma lembrança...


Dos tantos momentos
Que fizeram a nossa história
Já quase esqueci a maior parte

Foram tristes...
Fizeram-me mal!

Há muito que não falava disto...

Tranquei-os para sempre
Nas masmorras do esquecimento

Deve ser por isso
Que me falha tanto a memória...

Mas hoje
Ao ouvir esta música
Um resquício de um desses momentos
Um dos bons...
Não pediu licença para entrar
E invadiu o salão do meu pensamento...

As marcas do tempo

Tenho marcas no corpo
Feitas a contra gosto...
Em cada ano...
Um traço novo!
Qual mapa precioso
Que guarda um tesouro...
Desgastei-me aos poucos
No longo caminho da vida
Que me fugia...
Que corria sempre
Dois passos à frente!
E sorria...
E eu... envelhecia...
Não há reviravolta
Nem contravolta
Nem tampouco revolta
Sou o tempo sem volta!...

Tem cuidado com a tua beleza...


Tão alto que é o voo daquela alma
Em liberdade
A caminho do paraíso
Aquele que lhe foi prometido...
Fez dezoito anos na semana passada!
É dona e senhora
De toda a sua beleza
Voa princesa
Voa...
Mas vai com cuidado
Não vá a vaidade
Pregar-te uma partida
E acabares numa qualquer esquina
À toa...
Vendida vezes sem conta
Por qualquer dinheiro
Às mãos de um trolha
De um cangalheiro
Ou de um camionista
Quem sabe!...
Mais tarde
Já muito depois da hora...
Amarrotada como uma folha
E deitada fora
Como um qualquer lixo...
Sentada num banco livre
Daquela avenida
Talvez chores
Arrependida
E te aches mesmo um lixo...
Um lixo bonito!

Plumas negras...


Furiosos são os vulcões
Que se erguem do meio da terra
Impiedosos são os homens
Que se matam a si próprios
Usando as armas de uma guerra
Sem motivos...
Países que ardem sem parar
Atentados que matam às dezenas
Tornados que espalham a destruição
E a fome...
Loucos que disparam a matar
Chuvas de pedra que destroem colheitas
Angústia que consome...
Rostos espelhados de desilusão
Choros sentidos!

Plumas negras esvoaçam pelos ares...

Prazeres indescritíveis...

Subi ao altar das emoções
Contemplei o verde salpicado de branco
Percorri os montes da nostalgia




Embrenhei-me nos caminhos que julguei perdidos
E me levaram ao coração de uma outra vida
De um outro tempo...

Reencontrei rostos conhecidos
Sequiosos da mesma água
Que ali nos levou
naquela tarde...

Por fim...
... descansei no vale das minhas lembranças
Deste quadro que a memória não esqueceu!


Chegou o dia!

Deixo-vos com uma música fantástica!
Espero que gostem tanto quanto eu!...

Quanto a mim...
Vou por aí... sem destino...

Já o merecia!

Tenho bilhete de ida!

Levo na mala a vontade
E na alma...
A expectativa!...

As minhas tão merecidas férias
Chegaram!



O mesmo lugar... uma noite como as outras...


A noite avançava sem pressa
No meio de um calor infernal
Quase sufocante
Que emanava das paredes
Da velha casa de pedra...

Valeu-lhe o leque
Que por ela aguardava
Pacientemente
Lá no fundo daquela gaveta
Empenada...

Era uma noite quente de Julho
Como qualquer outra noite
De outros Julhos passados

Tudo permanecia igual...

Menos a companhia
Que a abandonara
Antes do Julho chegar...

Sonhos...


De que ilusões se fazem os sonhos?
Não, não falo dos que sonhamos acordados...
Falo dos outros
Os que nos povoam o imaginário
Enquanto o corpo se rende ao cansaço
E o cérebro se passeia livre
Ao sabor dos pensamentos gravados
E dos acontecimentos já passados...
E nos colocam em cena
Num plano irreal
De um filme bizarro
Sem nexo...
Como marionetas
Somos bonecos que se movem
Num mundo estranho
Emaranhado...
Amálgama de imagens irreais
Enganos do cérebro sem controlo?
Talvez sejam apenas sinais
De vivências surreais
Ou factos da vida... inacabada...

Preso aos fantasmas...



Algures entre o que foi e o que queria ser
Perdeu-se no caminho da razão...
Abandonou os sonhos
Por causa de uma promessa
Que não passava de ilusão...
Hoje vagueia no vale das sombras
Meio morto...
Ausente do mundo
Preso na teia da alucinação
Arrastando as pesadas correntes
Que o prendem aos fantasmas
Da sua triste condição...

Não me apetece fazer nada...


Hoje
... não vos vou falar de tristezas
Nem de lamentos...

... não procuro palavras para os meus poemas
Nem sequer tento...

A tarde alonga-se e a brisa sopra fresca
Um regalo para o meu corpo e mente
Que se delicia ao som da música amena
Vinda daquela banda de outros tempos...

Sentei-me neste banco de jardim
Alheia a tudo o que me rodeia
A preguiça tomou conta de mim
A minha mente vagueia

Apenas o meu corpo permanece aqui...