Dança comigo este tango...


Vem… dança comigo…

Uma dança
Quente
Sensual….

… deixa-me agarrar-te
Guiar-te os passos
Rodopiar contigo…
Dobrar-me sobre ti

E tu sobre mim...

Escuta... em silêncio...

Sente... em suspenso...

Suspende... o tempo...

Desejo

Tremor

Fulgor

E quase...

… quase beijar-te…
Recomeçar
E repetir

Vezes sem fim…

Vem… dança comigo…
Até que os nossos corpos
Suados…

… de desejo e de cansaço
Nos obriguem a parar…

Um dia choras...


Nem sempre choras

Mesmo que tenhas vontade

Não consegues explicar…

Tens vontade

Estás triste

Tens raiva… mas controlas-te!

Mas há um dia

Em que não aguentas mais…

E choras!

Choras por aquela vez

Pela anterior…

E pela outra…

E a outra…

Não choras só por uma coisa

Choras por tantas outras já passadas…

Mas choras!

Alivias a alma…

Porquê?!...


Famílias destroçadas
Crianças órfãs... sós...
Que choram...
Perdidas
Estáticas
Apáticas...
No meio dos escombros
Do que restou das suas casas
Trapos no corpo
Meio desnudados
Choros compulsivos
Desespero
Tristeza estampada
Nos rostos dos que ficaram...
Fome
Sede
Frio
Morte
Medo
Vazio
Sangue espalhado
Cheiro a podre...
Noite a meio do dia
Esperança adiada
Dia após dia
De dias e noites
Sem fim
Guerras inúteis...
Porquê?!

Recuo no tempo...


Um aroma
Um lugar
Um gesto
Uma música...
Basta uma pequena coisa
Voltamos atrás no tempo...
E... revivemos os mesmos momentos...
Aquele perfume...
Aquela festa... aquela canção...
Visualizamos os mesmos rostos...
O tempo fica suspenso...
... como se não tivesse passado...
O peito enche-se e...
... quase explode de emoção!

A dança da volta...


De tanta volta que dou
Volta não volta...
Volto atrás para apanhar a outra volta.
Vou juntando outra e mais outra
... esquecendo-me que depois de tanta volta...
Deixo uma volta perdida na volta que ficou atrás …
E dou meia volta...
Volto atrás...
E volto na volta... da volta que dei...
Com a volta
... que por lá encontrei!

Vermelho...


Não me olhes, fecha os olhos.
Não me toques, fecha as mãos.
Não me tentes...
Não vês que é a cor do pecado?!
Vermelho... cor de tudo e de nada...
Do batom dos meus lábios... que te mancham a pele
... que adivinho nos teus pensamentos luxuriosos...
Do calor das minhas mãos que te afagam o corpo...
Do meu verniz... de unhas que se cravam na tua carne fraca...
Na hora do amor que inventas num instante...
Vermelho de dor...
... da paixão e do sangue!

Amigo de verdade


Ainda nem meti a chave à porta, e já me estás a chamar!
Sentiste a minha falta?
Esses teus olhos enormes que me fitam
Que mais parecem esmeraldas... não mentem...
A tua altivez e beleza são apenas pormenores
Meu fiel companheiro de tantas horas boas e más...
Meu amigo de verdade!
O teu doce miar... como quem pergunta algo...
A tua alegria por me ver chegar...
Sim, perdoo-te o tapete que sujaste na noite passada!...

Invisívelmente à vista...


Olha... estou aqui!
Não me vês? Talvez não...
Sou apenas mais uma entre tantas outras por quem passas sem reparar...
Um vulto que se move no meio da multidão.
Uma alma errante que vagueia pelo espaço saturado...
Fazemos o mesmo trajecto de ida e volta, na mesma carruagem apinhada de gente.
Por vezes sentados lado a lado... ou frente a frente...
E nem sabes que existo... que te acompanho em mais uma viagem...
Mais logo, ou amanhã... daqui a uns dias... olho em redor e dou de caras contigo.
Olhas... mas não me vês...
Viras o rosto para a janela e perdes-te em pensamentos vagos...
E eu... sou só um vulto que se funde com as sombras da paisagem...

Tesoura afiada...


A tesoura que ali está
... tem poderes arrasadores!
As lâminas afiadas...
Que cortam impiedosamente a direito
As vidas que são dos outros...
... e só a eles dizem respeito!

Uma doce recordação...


Um ultimo olhar ditou o impulso que se seguiu
E os teus olhos não mentiram...
A tua boca desejava... o que as palavras não diziam...
O corpo tremia...
A vontade sofria...
Pelo toque urgente que os lábios pediam...
Nada mais importava
Apenas o instante...
Mesmo ali... naquele tapete rolante...
Deste cabo do que restava das minhas poucas desfesas
Uma explosão aconteceu... o meu corpo estremeceu...
Ninguém viu... ninguém ouviu...
Só tu... e eu!