Cada vez me sinto mais incapaz de fazer frente ao inferno em que nos transformaram a vida e nos reduziram a números. É o dinheiro a sumir-se mais depressa visto já não chegar para tudo porque bem menos do que antes e as coisas mais caras. É o trabalho a aumentar porque mentes brilhantes decidiram que havia que levantar o País do lodaçal e que para isso se tinha de trabalhar quarenta horas por semana e ganhar o mesmo. E tudo isto de cara alegre e ao lado de outros que têm contratos do mesmo número de horas só que remunerados de acordo e ainda de outros para quem não houve alterações do número de horas, continuando a fazer apenas trinta e cinco porque assim o determina o contrato que assinaram. De modo que, ainda ontem me(nos) calharam doze horas com um mísero intervalinho para engolir o almoço a correr porque daí a nada a atravancada e desconfortável sala minúscula, a fervilhar de outros que também passaram a ter de levar a lancheira. E ainda me (nos) faltam mais cinco destes até ao fim do mês. É que, ao contrário do que muitos pensam, não se trata de uma simples hora a mais por dia para todos os funcionários públicos(e nalgumas câmaras nem se aplicou a lei, imagine-se! O que é que lhes dá o direito de serem diferentes dos outros?), alguns terão de fazer dias inteiros(doze horas) e não é sentados numa cadeira... E depois, no regresso a casa (já de rastos porque dos vinte anos, já só as saudades que nos deixaram) ainda o frete dos transportes que demoram e outros até que nem vêm. Pelo meio, coisas que passam despercebidas mas que outros não fizeram ou porque se distraíram ou porque lhes faltou o apetite e já nem sequer existe respeito algum nem por colegas nem pelo que quer que seja (ninguém com autoridade a ralar-se em verificar). E depois, ainda há quem queira mandar sem motivo nem tampouco autoridade, ou para colmatar as suas próprias falhas ou simplesmente só porque lhes apetece. E já nem vou falar na pressão a que se está sujeito porque isso é outra conversa e agora não temos tempo. E há ainda a questão dos três dias a menos de férias porque não sei quê e deixou de ter importância se se é assíduo ou não, se se falta ou não. Incentivos ou reconhecimentos... que é isso?! Mete-se tudo no mesmo saco e ponto final.
No super-mercado, se quisermos trazer as coisas(convém que sejam poucas) porque nem o dinheiro, nem a força para arrastar o sacalhão de ráfia até casa, que se tem de ir mudando de mão para mão por via de não deslocar o ombro. A outra solução é ter de desembolsar mais um dinheirão pelos sacos que os governantes decretaram, uma espécie de roubo opcional.
Já em casa, é os gatos que se me enrolam nas pernas a reclamarem atenção porque sozinhos tantas horas, mais o jantar que não está feito, a roupa que não se estendeu nem a da corda se apanhou, na casa de banho o areão a reclamar do cheiro, o meu corpo a gritar e na televisão a dizerem coisas dos ladrões engravatados que, perante a nossa incredulidade, não sabiam de nada, de outros que não se lembravam mas que ainda assim querem continuar a mandar e a desmandar, por via de virem a deliberar mais coisas de modo a tornarem este inferno ainda mais infernal. Outros da mesma raça, continuam sem qualquer tipo de punição como se fosse a coisa mais normal do mundo enquanto se penhoram casas e bens alimentícios aos mais desfavorecidos.... Em suma, uma falta de vergonha e de respeito por tudo e por todos!
Ao que parece, é o castigo por ter(mos) andado a viver acima das possibilidades!...